O documento em sala de aula

O documento em sala de aula

COLÉGIO SANTA MARIA

15 de março de 2019 | 07h30

O curso de História no Ensino Médio do Santa Maria apresenta, entre seus pilares, o documento em sala de aula como um dos elementos centrais para o desenvolvimento das/os educandas/os e do pensar historicamente. As fontes primárias, em suas diversas categorias, escritas ou iconográficas, textos, excertos, artigos científicos, capítulos de obras de referência, representam não apenas uma opção metodológica, são também uma escolha político-pedagógica que dialoga com os pilares da escola e com a formação intelectual e cidadã que o Colégio deseja construir.

 

O percurso inicia-se pela escolha dos documentos e sua articulação com os objetivos da aula e dos conteúdos trabalhados. É imprescindível que essa escolha respeite a natureza do documento e o desenvolvimento cognitivo das/os alunas/os. No Ensino Médio, o currículo de História é pensado ao longo dos três anos do segmento, portanto ele ocorre de forma espiral, crescente e processual.

 

A 1ª série investe fortemente no documento escrito. O texto é ferramenta e arcabouço conceitual. Fontes primárias, autoras/es reconhecidas/os são interpretadas em aula a partir de estratégias de leitura recorrentes e adequadas às ciências humanas. Identificar pessoas, tempos, lugares, caraterísticas aparentes e a partir desse processo levantar elementos mais profundos, reconhecendo em seus/as autoras/es intenções e interesses não são revelados numa leitura desatenta e superficial. Os textos são caracterizados por sua diversidade e dificuldade.

 

É preciso, também, que esse trabalho seja constante e sistemático e assim seja entendido pelas/os alunas/os como fundamental para sua formação como estudante e leitor do mundo.

 

A 2ª série mantém o trabalho com texto e, de forma mais sistemática, a análise iconográfica. A reprodução de gravuras, pinturas, charges e fotografias torna-se constante, novamente como escolha metodológica e conceitual, entendida também como produto de um tempo, sociedade e interesses. É comum que as falas das/os alunas/os reproduzam o senso comum que enxerga, por exemplo, na fotografia uma imagem “congelada da realidade”.

 

Estratégias para sensibilizar, introduzir ou aprofundar temas/conceitos são utilizadas objetivando a reflexão profunda sobre a imagem, suas intenções explícitas e implícitas, numa provocação intelectual que também se aproxima das discussões sobre estética. Não é objetivo desse artigo aprofundar-se sobre a temática, mas é importante ressaltar que essa dimensão é significativa para a escolha dos documentos imagéticos que serão trabalhados. Aspectos sobre a composição das obras, intenções dos artistas/personagens, as formas de ser e estar no mundo a partir de perspectivas que se mostram muito mais complexas que um retrato pronto de um tempo.

Neste ano, a obra “Amnésia”, do artista Flávio Cerqueira, foi disparador de discussões sobre o curso de História da 2ª série e as temáticas e conceitos nevrálgicos na construção do Estado e sociedade brasileira: racismo, desigualdade, violência, branqueamento, escravidão, identidade(s).

 

Já a 3ª série, nessa perspectiva, utiliza-se do desenvolvimento dessas habilidades e competências para tratar do “breve século XX” com maior segurança, pois essas foram práticas do cotidiano escolar nos anos anteriores.

 

O ensino de história e a leitura e interpretação sistemática de documentos, autores/as de referência, textos acadêmicos são ferramentas potentes para a construção de estudantes competentes e autônomos. Em tempos de revisionismos de toda ordem, anti-intelectualismo e fake news, são, cada vez mais, instrumentos que contribuem para pensar rupturas e semelhanças, clarear o pensamento e revelar processos em suas dimensões mais profundas.