O diálogo no combate ao bullying

O diálogo no combate ao bullying

Colégio Santa Maria

14 de setembro de 2018 | 07h30

Autoria: Natália Ruela

“Educar a mente sem educar o coração não é educar de todo.”  (Aristóteles)

 

A cada dia, como pais e educadores, estamos mais alarmados com as consequências desastrosas advindas de situações que envolvem o relacionamento interpessoal nas escolas. Depressão, ansiedade, pânico e inseguranças cerceiam a vida de muitas crianças e muitos adolescentes e a escola precisa pensar qual o seu papel para prevenir tal fato e combater situações que possam estimulá-lo.

A escola é um lugar de socialização, de convívio e de construção da subjetividade e do ser social que nela está. No entanto, para muitos, a convivência tem tomado um significado pouco construtivo, dotado da capacidade de construção de medos, inseguranças e conflitos.

Conviver, de acordo com o dicionário Michaelis, significa, positivamente, “ter convivência, ter intimidade ou viver com outrem; relacionar-se amigavelmente ou dar-se bem”. No entanto, a outra possibilidade de significado apontada é de “experimentar situações difíceis, aguentar, suportar”. Infelizmente, tal conceito parece caracterizar a vida escolar de muitas crianças e adolescentes, graças à presença da prática de bullying dentro das escolas e nas redes sociais (cyberbullying), embora muitas dessas crianças e desses adolescentes não estejam suportando e aguentando a – para elas difícil – tarefa de conviver.

Mascarada de brincadeira, essa prática de violência repetitiva causa insegurança, exclusão e tristeza e, por isso, é fundamental que haja, em qualquer ambiente escolar, busca pelo seu combate, visto que uma das funções da escola é desenvolver inteligência emocional e pessoas tolerantes e respeitosas, que saibam conviver pacificamente com as diferenças.

Em maio deste ano, foi publicada no Brasil a lei 663/2018, que coloca entre as atribuições das escolas a promoção da cultura da paz e medidas de conscientização, prevenção e combate a diversos tipos de violência, como o bullying. Não obstante, o Colégio Santa Maria, mesmo antes da obrigatoriedade de tal trabalho, já abordava a questão, com o objetivo de trazer paz e bem-estar aos alunos e às alunas, em todas as etapas de educação.

Desde o ano de 2017 os alunos da 2ª série do Ensino Médio, em parceria com alunos do 7º ano do Fundamental, desenvolvem, durante as aulas de português, um trabalho que objetiva o combate de violências repetidas e exclusão (bullying e cyberbullying). Para tal, os discentes são previamente convidados e pesquisar e debater sobre a prática desse tipo de violência, seus agentes e consequências. Depois disso, ainda sem interação entre níveis, há o desenvolvimento de cartazes publicitários que objetivam conscientizar, desenvolver argumentação e esclarecer toda a escola sobre o problema e suas consequências, para, em seguida, desenvolver o trabalho de forma interpessoal e com o protagonismo total dos alunos, que se reúnem com os alunos da outra série para conversar e trocar experiências sobre o assunto.

Apesar de ter várias etapas, a última parece ser a mais eficaz em relação ao tema, visto que os alunos conseguem estabelecer escuta e fala entre si e, com protagonismo, conseguem se reconhecer como agressores, vítimas e/ou espectadores da prática de bullying e, por meio de diálogo e reflexão, conseguem achar caminhos que combatam tal prática. Os caminhos passam pelo reconhecimento, fortalecimento das vítimas, compreensão das fragilidades dos agressores e abertura de canais de comunicação, ou seja, é um trabalho que exige empatia e sensibilidade, habilidades bastante presentes em nossas crianças e adolescentes, mas que por vezes acabam por ser pouco desenvolvidos no ambiente escolar.

Manter aberta a possibilidade de falar, de expor medos e situações problemáticas e de ser de fato ouvido, seja na escola, seja entre amigos ou com a família é uma forma de prevenir as violências e criar uma rede de apoio para as vítimas, minimizando a recorrência e os impactos de tais atos. Reconhecer-se no outro só é possível pelo diálogo. Conhecer o outro é uma forma de autoconhecimento e de construção da subjetividade e da alteridade e o ambiente escolar tem o dever educacional e social de proporcionar que se desenvolva tal habilidade.

Cartaz publicitário desenvolvido por alunos da 2ª série do Ensino Médio do Colégio Santa Maria

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