O cinema mudo e a juventude

O cinema mudo e a juventude

COLÉGIO SANTA MARIA

19 de abril de 2019 | 07h30

Autoria: Marcos Iki

 

Terão os jovens paciência para ver um filme mudo hoje, tal como se fazia no início do século XX?

O projeto de área das Ciências Humanas do Colégio Santa Maria decidiu fazer essa aposta. Convidamos nossas alunas e nossos alunos a ver um filme de Georges Méliès de 1902, Uma Viagem à Lua. Este filme curto daria início ao estudo da ida da humanidade à Lua, evento que instiga a reflexão acerca de temas como a relação entre política e técnica, a geopolítica, a neutralidade científica, o imaginário de uma transcendência da condição terrena da humanidade.

Um detalhe relevante foi adicionado à exibição: a elaboração de uma trilha sonora, a ser executada ao vivo pelos próprios professores. A experiência remete às primeiras sessões cinematográficas, que ainda não contavam com as condições para a reprodução do som concomitantemente ao vídeo.

A experiência, inédita para a maioria de alunas e alunos, provou ser profundamente significativa. Um silêncio de cristal se constituiu enquanto professores/músicos e mais de trezentos estudantes respiravam em conjunto, acompanhando as peripécias do grupo de cientistas que descobre perigos e explora, com violência, o ambiente lunar. Esta trajetória, e a violência da conquista que a acompanha, ainda serão tematizadas com mais vagar nos cursos da área.

A exibição termina, dando lugar àquele que seria o evento central do dia: uma palestra acerca da pluralidade de perspectivas, dentre as culturas, acerca do céu. As alunas e os alunos estavam abertos para esta vivência de modo mais inteiro e mais reflexivo.

Se ainda há paciência para ver um filme mudo hoje, sobretudo acompanhado ao vivo pela música? A resposta afirmativa demanda ainda um complemento: isto se faz necessário. À juventude que está cotidianamente exposta ao mais alto grau de reprodutibilidade técnica, oferecer a experiência do aqui e agora é um imperativo. Cada docente o faz em sua prática diária. Mas a possibilidade de que sejam tocados pela arte, sobretudo por uma arte não tutelada por uma exigência de acerto em sua interpretação, pode potencializar a busca por um mundo menos dominado pela estatística, pelos algoritmos e por preceitos éticos e estéticos estabelecidos sem autonomia.

 

 

 

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