O ato da criação e o currículo diversificado

Colégio Santa Maria

27 Novembro 2015 | 07h00

O livro Educação: um Tesouro a Descobrir, sob a coordenação de Jacques Delors, aborda os quatro pilares de uma educação para o século XXI. Segundo o autor, a prática pedagógica deve preocupar-se em desenvolver quatro aprendizagens fundamentais, que serão para cada indivíduo os pilares do conhecimento:

  1. Aprender a conhecer indica o interesse, a abertura para o conhecimento, que verdadeiramente liberta da ignorância;
  2. Aprender a fazer mostra a coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar;
  3. Aprender a conviver traz o desafio da convivência que apresenta o respeito a todos e o exercício de fraternidade como caminho do entendimento;
  4. Aprender a ser, que, talvez, seja o mais importante por explicitar o papel do cidadão e o objetivo de viver. Muito além do conteúdo. Como o desenvolvimento das competências socioemocionais se tornou fundamental no contexto escolar.

RODRIGUES, Zuleide B. “Os quatro pilares de uma educação para o século XXI e suas implicações na prática pedagógica”. Revista Educar Transforma.  Ano 01/nº 02/2015, ed. Ática.

Pensando nesses quatro pilares, os alunos do Ensino Médio do Colégio Santa Maria, durante os três anos, escolhem matérias que dialogam com o Currículo Tradicional, mas trazem algo a mais à vida desse estudante, pois perpassam por esses quatro pilares. Elas são escolhidas quase ao final do ano e algumas delas são sempre muito concorridas e comentadas nos corredores do Ensino Médio. São as chamadas matérias do Currículo Diversificado.

O que faz com que essas matérias se destaquem e “caiam no gosto do aluno”? Os professores são os mesmos da grade do currículo tradicional e a maioria dos professores acaba trabalhando conteúdos alinhados a sua matéria. O que faz a diferença, então?!

Com certeza, o pensar e pôr em prática “os quatro pilares” faz toda a diferença. Na área código de linguagem, temos, por exemplo, o currículo denominado “Interpretando Texto com Competência e Habilidade. O professor apresenta, semanalmente em duas aulas, textos bem variados: letra de música, pintura a óleo, escultura, charge, filmes. O objetivo final desse curso é desenvolver e unificar os quatro pilares do conhecimento.

Como conciliar a teoria de Delors à prática em sala de aula? O dia a dia não foge ao modelo tradicional de aula:  na primeira parte da aula, é feita uma leitura em grupo do texto apresentado (pintura, música etc). Essa leitura sempre envolve os instrumentos necessários para uma boa interpretação de texto.  No caso da música, a letra, a melodia, os instrumentos musicais utilizados, primeiramente; depois o “diálogo” possível entre todos esses elementos com a escola artística a qual o compositor/arranjador se encaixam; e, para finalizar, as características individuais estéticas desse(s) artista(s).

No segundo momento da aula, o aluno é convidado a participar de alguma forma desse processo artístico investigado: começa com um processo mais intelectual, de análise de uma música escolhida por ele (ou por eles, existe sempre essa opção em trabalhar em grupo tanto na análise como na feitura do texto) e depois, o(s) aluno(s) criam a sua própria música, levando em conta o que foi visto em sala de aula.

Ao final do semestre, há a exposição de trabalhos, no prédio do Ensino Médio.  Nessa exposição o tema condutor é o conto de Clarice Lispector, “Os Desastres de Sofia”. Este conto fala sobre a experiência do “Criar” e da “Experiência Escolar” de uma menina e sua relação com o professor, entre outras coisas. Dentro desse contexto os alunos “atacam” com diversas formas de fazer artístico e dialogam com o texto da escritora: poesia, contos, fotos, bordado, argila, marcenaria etc.  A “Curadoria” também é fruto do trabalho do(s) aluno(s). Eles pensam, criam e montam a exposição.  Tudo é sempre dinâmico e participativo.

É sempre um desafio o ato de “criação”, mas é um desafio que acolhe, que inclui, pois não há julgamento de valor estético, ou de certo e errado, ou a resposta tem que ser semelhante à do meu colega. É um ato de criação que envolve várias habilidades: a habilidade de se colocar no mundo, de forma organizada, de trazer o conceito estético do belo “para si” e de poder participar esse conceito com o outro. Tornando a Escola, assim, um espaço prazeroso e dinâmico, sempre “em construção” pelo/do aluno.

“Pensamos que ao fim de cada semestre conseguimos unificar ‘os Quatro Pilares de Delors’:  o interesse pelo conhecimento; a coragem de executar; a fraternidade do trabalho em grupo; e o aprender a ser e de se colocar no mundo como cidadão que modifica o ambiente e que o torna sempre  melhor. Isso sim é educação!”, finaliza Sandra Macedo, professora de Literatura da 1ª série.