Ô, abre alas pros teus heróis de barracões

Ô, abre alas pros teus heróis de barracões

COLÉGIO SANTA MARIA

13 de março de 2020 | 07h47

 

“Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra”

(Mangueira – 2019)

 

Vamos pegar carona numa discussão bem recente. Na edição de 2020 do Carnaval no Brasil, particularmente no desfile das escolas de samba do grupo especial no Rio de Janeiro, ficou impossível não entender a dimensão política dessa manifestação cultural.

Para as Ciências Sociais nada aqui é estranho. Partimos do entendimento de que a Cultura, como qualquer instância de expressão humana, sempre estará prenhe de política. A Política é o caráter distintivo da Mulher e do Homem, únicos capazes, portanto, de construir História. Como o Carnaval poderia estar fora?

 

Não por acaso, para os campos da pesquisa e ensino em História, toda e qualquer forma de manifestação cultural é, por excelência, documento de seu tempo. As sociedades falam através dela, denunciam suas contradições e projetam os seus desejos. É, ao mesmo tempo, passado, presente e futuro: não podem se livrar de suas marcas de construção (patriarcalismo, racismo, autoritarismo), expõem suas forças de atuação – quer de afirmação, quer de resistência àquela realidade (a força da comunidade, a união do povo, a disposição de valorizar raízes) e, por fim, o “vir a ser”, a utopia coletiva (o Brasil que queremos).

 

Quem desde sempre entendeu essa propriedade política, que alguns críticos (autorizados ou não) pretendem negar, foi o Estado em vários governos.

 

Na República Velha (1889-1930) a capoeira e o samba estavam proscritos. Junto com os terreiros de candomblé, estavam associados aos morros, ao populacho negro, mestiço, branco pobre. Os mesmos que no projeto higienizador de Pereira Passos na capital tomaram as ruas na Revolta da Vacina.

 

O Estado Novo (1937-1945) muda o rumo e o tratamento da questão. Ao invés de perseguir e empurrar para debaixo do tapete da Avenida Rio Branco, a Ditadura Vargas entende a importância de absorver a cultura popular como constitutiva da identidade brasileira. O samba sai das celas das cadeias, vira hino nacional. No entanto, é completamente domesticado e, portanto, esvaziado de seu conteúdo perigoso. Os desfiles de Carnaval das Escolas no Rio de Janeiro ganham o seu primeiro “sambódromo” e devem somente exaltar em seus enredos as coisas do Brasil, “meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro, vou cantar-te nos meus versos”. Nada como uma proposta nacionalista autoritária para repolitizar a cultura a serviço do Estado.

 

A Ditadura Civil-Militar (1964-1985) vai repetir a mesma ação: impor um regulamento – aquilo que impede o seu caráter anárquico original, circunscrever sua execução, restringir a temática, censurar cenografia, alegorias, fantasias. Um novo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão do governo do Estado Novo que controlava toda a produção cultural do país) passa a atuar. Estudos mais recentes analisam que dessa vez o alvo preferencial foi o Carnaval de São Paulo, suas Escolas de samba, suas periferias.

 

Interessante observar: carnavalizar pressupõe a ruptura do normal, a desobediência, a explosão das vontades, a inversão de lugares, a revolução dos costumes. Nem que seja por poucos dias, a ordem é extravasar, sair da regra, surpreender. No Carnaval tudo pode, tudo é permitido. Os governos autoritários sabem disso. Interessante ver, por exemplo, que se no Sambódromo as coisas podem ficar comportadas, nas ruas tudo é mais incontrolável. No Rio de Janeiro, Salvador e Recife a expressão dos blocos de rua sempre foi grande. Em São Paulo chama atenção o gigantismo dos últimos tempos. O que está acontecendo? Como enquadrar esse outro Carnaval? Mesmo o Carnaval das Escolas foge ao total controle nos períodos democráticos. E aí?

 

Pronto. Está comprovado. O samba-enredo de uma Escola pode ser usado como documento numa análise histórica, na pesquisa e no ensino.

 

O Colégio Santa Maria entende essa dimensão da cultura e, em diversas situações, traz para a sala de aula (no debate, como texto de apoio, como questões de avaliação) parte da produção cultural brasileira em diversos momentos da História. Interessa-nos entender o papel do samba-exaltação do Estado Novo, a Bossa Nova no Brasil dos “anos dourados” ou a Música de Protesto da Ditadura Civil-Militar. Interessa-nos o que é dito e o que não é. O explícito e as entrelinhas.

 

Interessa-nos também saber como uma manifestação cultural pensa o presente e o passado, como trata nossas contradições históricas e como projeta novas possibilidades. Foi isso que trouxe para uma avalição de História o samba-enredo da Mangueira de 2019 – História pra ninar gente grande. Naquele momento os alunos que haviam estudado o Brasil Império no ano anterior tinham que localizar na letra do samba elementos daquele período e discutir a tese central do enredo. Na sequência buscaram interpretar uma alegoria da bandeira do Brasil que a Escola usou no Rio e compará-la com o momento de confecção da bandeira republicana no final do século XIX.

 

Os resultados foram muito interessantes. Reparem que foi uma excelente oportunidade para discutirmos todas essas dimensões: o que é um documento, o que é cultura, existe uma cultura popular, o que é censura, o que é resistência, o que é política, como os governos podem operar o campo da cultura?

 

Excelente provocação para o ano do Ensino Médio que privilegia estudar o Século XX e que tem como Eixo fundante o embate Democracia e Totalitarismo.

Esperemos a discussão sobre os sambas do Carnaval de 2020!

 

 

 

 

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