Nunca amar o que não vibra, nunca crer no que não canta

Nunca amar o que não vibra, nunca crer no que não canta

Colégio Santa Maria

10 Julho 2015 | 07h00

Reflexão de Adriana Pereira da Silva Baptista de Freitas, orientadora da 3ª série do Ensino Médio e coordenadora da área de Ciências Humanas do Santa Maria, sobre “tecnologização”

Assistimos nesse século, já é senso comum, a um desenvolvimento espantoso da sociedade humana, tanto tecnológico quanto social, e ultimamente a virtude que mais tem sido valorizada é justamente a capacidade de adaptação do profissional às várias tecnologias disponíveis no mercado. É necessária uma vontade própria, um desejo consciente de evolução, além daquele inerente ao homem, que afaste a estagnação, o conformismo e a impassibilidade que comumente acomete o homem que já alcançou determinado patamar social e financeiro. Entretanto, tal comodismo pode também atingir indivíduos que ainda não tenham atingido posições, digamos, satisfatórias, tanto para si quanto para a sociedade que, de certa forma, também cobra esse desempenho.

Não acreditar naquilo que não possui a capacidade de cantar, nos remete ao mito do canto das sereias, que atraíam os pescadores para a morte por meio da beleza de suas vozes e seu canto. Podemos hoje transportar esse canto para a necessidade atual do homem de ser comunicativo, que busca um crescimento constante; assim, é a Comunicação, desde a sua vertente mais simples (a conversa cotidiana, a revista, o jornal) até o auge (justamente a Internet), o grande propulsor de toda essa evolução, pois nada mais sedutor que a possibilidade de estar “cantando”, ou seja, estar dialogando, argumentando, adquirindo conhecimentos na medida em que são elaboradas questões e exigidas respostas (alcançadas facilmente através dos mais diversos meios de comunicação que nos são oferecidos).

A disposição voluntária do homem de adaptar-se às grandes transformações tecnológicas que o circundam, aliada à facilidade de acesso aos meios de comunicação, suaviza o peso da cobrança social por esta adaptação, pois infalivelmente a sociedade exigirá que esse indivíduo se adeque a tais tecnologias.

Mencionando novamente o mito do canto das sereias, os pescadores, não possuindo o domínio visual da situação (pois só escutam as vozes), deixam-se seduzir pelo momento, mesmo desconhecendo o que estaria por acontecer (a morte). Traçando-se um paralelo com o nosso dia a dia, é o que nos falta: deixar-nos envolver pela arte, embriagar-nos de literatura, mesmo não sabendo o que elas possam nos reservar. E esse convite já nos fora feito por Cazuza: “E ser artista no nosso convívio/ Pelo inferno e céu de todo dia/ Prá poesia que a gente não vive/ Transformar o tédio em melodia”. Infelizmente, na incessante busca de atualização para atender as exigências do mercado de trabalho, perde-se de vista, ignora-se muitas manifestações artísticas, tais como: a música, a pintura, a poesia entre outras.

O mercado de trabalho, a mídia, a tecnologização podem ser responsabilizadas pela tendência do indivíduo em buscar, atualmente, respostas acabadas, objetivas, rápidas, enfim, práticas; em contrapartida, o que é mais profundo, subjetivo, filosófico, é sumariamente expurgado. Se o sujeito não tiver disposição, capacidade ou acesso a todo esse aparato, ocorrerá a sua exclusão, ou seja, ele será posto à margem, perdendo, desta forma, o direito de desfrutar os grandes prazeres fornecidos e oferecidos pelo meio social.

Analogicamente, é como se o homem estivesse diante de duas imagens: a primeira é uma fotografia, que poderá ser vista apenas de um ângulo, constituindo-se como algo objetivo, acabado, que não despertará grandes questionamentos; a segunda é uma obra de arte, bastante subjetiva, que poderá ser analisada sob vários prismas, exigindo-se do observador uma interpretação pessoal, uma compreensão, enfim, uma função analítica do cérebro. O indivíduo, integrante da sociedade pós-moderna, indubitavelmente, optará pela primeira imagem.

A informatização, ao lado da tecnologização, constitui-se como uma faca de dois gumes, pois, ao mesmo tempo que seduz (contribuindo para uma aparente “evolução”), aliena; sem uma educação adequada, que proporcione o discernimento necessário ao indivíduo, este será podado, não dará vazão à capacidades outras de seu intelecto.

Somente a escola (e consequentemente a educação) pode possibilitar a interação do sujeito com a sociedade e, por sua vez, com as diferentes tecnologias, enfim, com o que vibra, com o que canta. Certamente, alguns aspectos dessa escola deverão ser readaptados para a nova realidade da Revolução Técnico-Científica. Neste contexto, o saber escolar deverá estar em constante renovação, em sintonia com os avanços apresentados nas sociedades em geral. Ou seja, seu conteúdo deverá procurar abranger todas as esferas envolvidas na sua produção, não se restringindo a apenas um segmento específico, a fim de que o aprendizado possa fluir naturalmente, sem estar vinculado com a obrigatoriedade (onde o papel crucial do professor será facilitar, mediar e, sobretudo, orientar o desenvolvimento cognitivo do aluno).

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