Novas camadas de comunicação

COLÉGIO SANTA MARIA

14 de agosto de 2020 | 07h30

Autoria – Adriano Santos

 

Primeiro, o óbvio: todos nós estamos enfrentando o desafio de nos adaptarmos a esse contexto trazido pela pandemia. E no caso da educação a sala de aula nos foi arrancada repentinamente, o que trouxe, como consequência, a urgente necessidade de que encontrássemos rapidamente um caminho que nos permitisse continuar construindo o processo de ensino-aprendizagem junto a nossos alunos.

 

A primeira reação de muitos de nós foi pensar que as aulas online não funcionariam, que os alunos não comprariam a ideia. E, pior, que os alunos pudessem sabotar as aulas a distância. O que se viu depois, no entanto, foi justamente o contrário. A regra está sendo o esforço conjunto para que o processo aconteça. E, nesse esforço, vemos os alunos ajudando professores a resolver, por exemplo, questões técnicas relativas à transmissão das aulas. Ou dando um retorno sincero sobre como está sendo o aproveitamento dessa nova metodologia.

 

Nas aulas de Língua Portuguesa do Ensino Médio do Santa Maria, ocorre algo bastante interessante. A principal questão que se coloca quando se fala em EAD (Educação a Distância) é a comunicação. Desse modo, o próprio processo transforma-se em objeto de nossa observação e análise nesse momento. Se antes havia o olho no olho, a leitura da linguagem corporal e a percepção do ambiente da turma durante uma aula, agora o mais comum é encararmos avatares estáticos nos olhando de uma tela.

 

No entanto, se por um lado perdemos elementos que contribuem para um processo rico de comunicação, por outro a necessidade de adaptação está exigindo que trabalhemos habilidades que talvez estivessem subutilizadas antes. Agora, por exemplo, o conceito de “turnos de fala” está mais à vista do que nunca. Claro que ele já estava presente antes, mas com a intensa utilização das plataformas de reuniões online ficou mais evidente aquele momento em que as falas se atropelam. Torna-se muito mais necessário que haja um respeito aos turnos de fala. E os alunos perceberam isso muito rapidamente. Não só eles, mas todos nós nos adaptamos a uma realidade em que nosso microfone fica fechado enquanto outros falam e é ligado quando é nossa vez de contribuirmos para a discussão. É como se fosse uma nova versão do “bastão da fala”, aquela atividade em que só quem está segurando o bastão pode dizer algo naquele momento.

 

Qualquer momento de crise mostra o que de pior e o que de melhor o ser humano pode apresentar. Infelizmente, estamos em uma situação em que atitudes condenáveis são cotidianamente arremessadas em nossa face. Ainda há por aí, por exemplo, alunos que se aproveitam das brechas dessa nova metodologia para atacar anonimamente professores ou mesmo colegas. Mas não é esse o tom geral, pela minha experiência. São infinitamente mais frequentes as atitudes que chamam a atenção pelo companheirismo, pela vontade de atravessarmos a crise juntos, pela confiança. Mesmo em um momento de distância e de avatares na tela, o que domina os momentos de aula online é aquilo de que teremos orgulho de nos lembrar no futuro: o companheirismo num momento tão difícil, a vontade de fazer com que tudo aconteça da melhor maneira possível. A vontade de travar essa batalha juntos.

 

Talvez a distância, em certo sentido, tenha nos aproximado por meio de uma nova camada de comunicação.

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