No princípio – e em todos os tempos – é o verbo

No princípio – e em todos os tempos – é o verbo

Colégio Santa Maria

29 de novembro de 2019 | 11h23

Autoria: Adilma Secundo Alencar

O texto da Base Nacional Comum Curricular traz diversas nuances, algumas já conhecidas, outras que surgem pela primeira vez de modo explícito dentro de um documento oficial dos órgãos públicos que zelam pela educação. Numa sociedade que medicaliza cada vez mais cedo sua população, que acompanha com susto e agonia o índice de suicídio entre crianças aumentar todos os dias, a BNCC acerta em inscrever em seu texto palavras como empatia e autoconhecimento. Se as mudanças que o documento propõe farão com que o aluno passe mais tempo na escola, é preciso que esse tempo seja um tempo vivo, feliz, jovem.

Se desejamos uma sociedade intelectualmente saudável, é preciso espaço para a fruição, mas como avaliar a fruição? Qualquer tentativa nesse ingrato intento será frustrada, uma vez avaliada a intensidade com que uma pessoa goza de uma experiência artística será o fim da fruição. Essa afirmação não anula nossa ação docente diante de uma experiência artística, pelo contrário, nos convida a criar instrumentos que seduzam, que estimulem a percepção mais larga do olhar do aluno, mas que não ultrapassemos o limite do que será sempre a sua experiência pessoal.

A partir dessas reflexões compartilhadas dentro da área de Linguagens, nas reuniões da equipe de professores de Ensino Médio do Santa Maria, pensar as aulas de Literatura tem sido um espaço para a criação. Mais do que estudar as figuras de linguagem dentro dos poemas simbolistas, os alunos experimentam criar poemas com as tintas dos devaneios da estética simbolista. A partir do que sabem sobre o movimento, tocam também nas suas emoções partilhadas a partir da segurança do fazer ficcional.

Por meio do jogo Enredo, da escritora Fabiana Prando, os alunos brincaram de faz-de-conta, com o compromisso único do brincar. A criação de personagens, espaço, clímax, desfecho e até novas regras para jogar foi uma experiência de criação entres os próprios grupos que decidiram como desfrutar do jogo de cartas. A intenção da atividade não foi pensar em usar elementos narrativos e sistematizá-los, foi brincar junto, sorrir das viagens subjetivas que a liberdade de criar possibilita. A aprendizagem sobre os elementos narrativos aparece, visto que já existe em todos nós que produzimos e consumimos narrativas o tempo todo. O jogo trouxe como novidade a partilha de diversos modos de contar uma história.

Acredito com muita força na potência da alegria e da arte dentro do espaço da aprendizagem. O “direito à fabulação”, defendido por Antonio Candido em um dos seus textos mais belos, sempre me orienta a pensar o espaço das aulas de Literatura como uma possibilidade de incentivar o gosto pela narrativa; os modos são os mais variados, com tintas, com cartas e com cheiros (em atividades de sensibilização).

Há o desespero, o medo da morte, a depressão, o abismo social que o noticiário anuncia todo dia, mas há Machado de Assis, Brecht, Conceição Evaristo e, se sabemos ler, é preciso também que leiamos a vida. Como nos ensinou Paulo Freire, é preciso decodificar a realidade até o ponto que enxerguemos que a vida vale a pena, que viver é bom. Guimarães também nos ensinou: “o que a vida quer da gente é coragem”.

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