Mudar é um desconserto, é uma aprendizagem

Mudar é um desconserto, é uma aprendizagem

COLÉGIO SANTA MARIA

17 de maio de 2019 | 07h30

Autoria: Adilma Secundo Alencar

 Ler um livro de maneira atenta e saborosa é uma experiência que vicia. Há fortes indícios de que uma vez praticada esse tipo de leitura, as chances que o indivíduo tem de tornar-se um leitor voraz aumentam consideravelmente. Incitar a formação de um leitor de literatura é um trabalho hercúleo, é diferente de ler literatura para o vestibular, revisar as características da estética literária, decorar os nomes dos autores. A literatura como instrumento propedêutico de acesso à universidade encerra uma intenção reducionista diante da potência que a arte oferece. Mas o vestibular exige essa leitura e por isso os alunos têm consigo essa expectativa diante da aula. O que fazer?

Um passo importante é considerar o estudante como corresponsável pelo seu próprio aprendizado. Partindo dessa premissa, os alunos da 2ª série do Ensino Médio do Santa Maria sugeriram as mais diversas formas de avaliação para uma abordagem do livro O cortiço, de Aluísio Azevedo. Com as opiniões anotadas e explicadas, a próxima etapa foi a votação: cada sala da série escolheu uma abordagem diferente. Esse tipo de diálogo e construção coletiva nos mobiliza (professora e estudante) a criar metodologias novas, para experimentarmos o erro e ousarmos mudar.

 

Esse desconserto que o título deste texto apresenta é sobretudo para dizer como a criação implode arranjos já estabelecidos para possibilitar a existência do novo. Nas metodologias tradicionais (avaliação objetiva, prova dissertativa e redação), há uma previsibilidade até sobre eventuais problemas; nelas, o espaço para a novidade estrutural é quase nulo, mas quando perguntamos aos estudantes o que eles desejam como formas de avaliar o processo de aprendizagem, nos deparamos com situações inusitadas – gêneros midiáticos que às vezes desconhecemos são eleitos como instrumentos avaliativos, famosos escritores de fanfics que desconhecemos são citados.

Criar situações em que os alunos escolhem uma abordagem nova de determinado tema pode desnudar nossa pretensa erudição e mostrar nossa faceta mais humana: a fragilidade de quem não sabe, de quem erra. Embora não saber de tudo seja uma verdade óbvia, a figura do professor como dono do saber ainda assombra nossa prática. Com essa pergunta feita para a 2ª série, estamos criando novas possiblidades de métodos avaliativos, pois a maioria das salas escolheu abordagens que eu nunca avaliei antes.  O fato de a atividade ser uma escolha da sala cria entre todos nós um sentimento de responsabilização diante do que estamos aprendendo, visto que alunas e alunos exercem autonomia diante das opções oferecidas.

Se o envolvimento com a obra literária vier a partir de um meme, um podcast, um sarau ou da simulação de um julgamento, já será motivo o bastante para dar corpo e continuidade a essa experiência incipiente.

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