Memes x reflexão crítica: uma falsa dicotomia

COLÉGIO SANTA MARIA

04 de maio de 2021 | 07h00

Autoria – José Fernando Queiroz

Não é inovadora, tão pouco ultrapassada, a ideia bem desenvolvida por Paulo Freire de que só conseguimos melhorar a realidade em que vivemos formando indivíduos com senso crítico e preparados para intervir nos problemas sociais que nos assolam. Neste processo de formação, um dos problemas que enfrentamos atualmente é como levar a reflexão com base científica e ética em um contexto que notícias falsas são disseminadas utilizando de toda a velocidade trazida pela internet, com linguagens e recursos que despertam mais o interesse e a crença nestes meios do que em dados e teorias científicas.

Ao longo de nossos estudos acadêmicos, professores das mais diversas ciências são preparados para aferir e conhecer os fatos, as provas, bem como as teorias que destas resultam. Com tal preparação, faz sentido pensarmos que estes procedimentos são em si também argumentos capazes de iluminar os problemas que existem em nosso entorno e, diante disso, que faz parte de nosso papel enquanto educadores aproximar as(os) estudantes da reflexão científica, visto que assim permitiríamos que tenham uma compreensão mais fidedigna da realidade. Ao mesmo tempo, não é incomum nossa surpresa com crenças estruturadas a partir de memes, vídeos e todo tipo de “correntes” que circulam nas redes sociais. Aqui podemos cair em uma falsa dicotomia entre teorias científicas e os famosos memes e outros artifícios tão utilizados, inclusive por propagadores de notícias falsas.

Lidar com esta aparente dicotomia é algo que tem acontecido, por exemplo, em aulas de Ciências Humanas do Ensino Médio no Colégio Santa Maria, em que o desenvolvimento de uma percepção crítica calcada na ciência utiliza como um auxílio linguagens e recursos que são comuns aos estudantes, como memes, animações e publicações do gênero. Afinal de contas, como despertar e manter o interesse dos estudantes no processo de ensino aprendizagem se ignoramos linguagens e a bagagem de cada envolvido no processo, seja este conhecimento comprovado ou não?

Pensando nisso, memes e os demais elementos foram incorporados em diferentes aulas na exposição de um novo tema, na exemplificação de uma teoria já estudada, ou até mesmo na provocação para um debate sadio e necessário, pois a combinação entre conhecimentos específicos e estes recursos têm promovido ganhos de aprendizagem para educadores e educandos, pois ao ouvirmos os estudantes e valorizarmos seu modo de perceber a realidade, somos convidados a repensar nossa prática e selecionar o que de essencial em nossa formação pode contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico e autônomo, aperfeiçoando assim nossa própria prática docente.

Afinal de contas, em uma situação em que todos os recursos multimídias são instrumentos essenciais na comunicação e continuidade da formação de pessoas com desejo de melhorar a realidade social, desmistificar o conhecimento científico e permitir sua apropriação por toda a comunidade escolar é uma das vacinas que podemos adotar na prevenção de notícias falsas e na formação integral de pessoas sensíveis aos problemas sociais, preparadas e dispostas a agir em prol de, a cada dia, caminharmos rumo a uma sociedade que assegure de fato dignidade a todos os seus membros.

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