Matemático herói de guerra em visão multidisciplinar

Matemático herói de guerra em visão multidisciplinar

COLÉGIO SANTA MARIA

04 de outubro de 2019 | 07h30

Autoria: André Augusto Vallado Batista

 

Estima-se que a Segunda Guerra Mundial tenha causado mais de 50 milhões de mortes. Esse cenário poderia ter sido ainda pior se não fosse a atuação de um ilustre matemático. Alan Turing comandou um grupo de elite formado por pessoas de alta notoriedade na época e de diversas áreas, da ciência e linguagem.

Na época da Segunda Guerra Mundial, a comunicação militar era feita por meio de ondas radiofônicas e cabos telefônicos, ambos facilmente interceptáveis. Daí a necessidade de usar a criptografia, que é a criação de um código através do embaralhamento de símbolos, no caso letras, para tornar incompreensível a mensagem, caso venha a ser interceptada.

Os Nazistas então criam uma máquina chamada Enigma, espécie de máquina de escrever com rotores, que mudavam seus códigos diariamente, ou seja, uma frase quando escrita nesta máquina passava por transformações, trocando símbolos e letras e depois eram transmitidas. Quando chegava ao local de destino, a mensagem era novamente modificada, voltando a ficar igual à original.  Se alguém captasse as mensagens neste trânsito, não seria capaz de entendê-la. Algo semelhante é usado hoje no WhatsApp ou em transações bancárias que são criptografadas durante a transmissão. O Enigma era capaz de formular milhares de combinações diferentes e, portanto, milhares de códigos.

Turing descobriu como decifrar a Máquina Enigma fazendo uso da Matemática, no caso a Análise Combinatória e construindo uma máquina muito avançada para a época, que se analisada hoje seria um computador extremamente rudimentar. Este “computador” possuía mecanismos que permitiam várias análises simultâneas de textos, na velocidade superior aos humanos. Com isso em mãos, em 1942, os ingleses conseguiam ler 50 mil mensagens por mês, uma por minuto. Assim, conseguiram desvendar os passos da investida nazista, incluindo onde estavam seus submarinos e até mesmo onde eles atacariam no Dia D. Esta descoberta foi decisiva para a vitória dos aliados.  O fato de Turing ter construído tal máquina, dentre outros, lhe rendeu o título hoje de “pai da computação”.

O filme “O jogo da imitação”, com oito indicações ao Oscar (obteve um Oscar), conta a história da vida de Alan Turing, mostrando os aspectos da vida do matemático como cientista e como um ser humano frágil e sofrido. Quem dá vida ao personagem principal é excelente ator Benedict Cumberbatch.

Os alunos da 2ª série do Ensino Médio do Santa Maria, em um momento especial durante o ano, através de um trabalho multidisciplinar envolvendo Matemática, Sociologia e História, tiveram a oportunidade de assistir ao filme, na companhia dos professores destes componentes curriculares. Após a exibição do filme iniciamos uma discussão. Durante esta discussão os professores presentes fizeram colocações e explanações a respeito das temáticas que envolviam o filme. O professor de Matemática mostrou como, através da análise combinatória, conteúdo desenvolvido na 2ª série do Ensino Médio, Alan Turing construiu sua máquina capaz de realizar milhares de combinações em pouco tempo e fornecer material para que outros especialistas pudessem realizar o trabalho de decifração. Também deu uma breve explicação de como funcionava o computador na época e sua implicação nos equipamentos atuais. Já o professor de Sociologia expôs fatos e fez relações com a sociedade da época, uma vez que Alan Turing sofreu imensa discriminação e perseguição pelo fato de ser homossexual. A professora de História localizou o filme na conjuntura histórica e expõs os fatos e acontecimentos da Segunda Guerra e suas implicações na época e na atualidade.

Por fim, conversamos sobre o destino trágico do matemático Alan Turing. No ano de 1952, mesmo depois de ajudar a decodificar uma linguagem secreta usada pelos nazistas para efetuar ataques na Segunda Guerra Mundial, o que possibilitou o adiantamento e a vitória dos Aliados, é julgado e condenado por homossexualidade no Reino Unido. O homossexualismo era considerado crime na Inglaterra até meados da década de 1960.  Para não ser preso, Turing aceitou um tratamento que previa castração química e controle por hormônios femininos, o que lhe causou muito sofrimento. Morreu jovem, aos 41 anos, em junho 1954, vítima de envenenamento por cianeto de potássio.

Um inquérito aberto pela polícia concluiu que ele havia se suicidado. Quase 60 anos depois, recebeu o perdão real da Rainha Elizabeth II. E agora, o “pai da computação‟, como é conhecido, foi escolhido dentre uma lista com mais de 200 mil nomes, para estampar a nova cédula de 50 libras, que deve entrar em circulação em 2021. De acordo com o Banco da Inglaterra, a decisão levou em consideração o papel crucial de Turing na decifração dos códigos nazistas e a sua função vanguardista no desenvolvimento dos primeiros computadores. “Alan Turing foi um matemático excepcional, cujo trabalho teve um impacto enorme em como vivemos hoje. Como o pai da ciência da computação e inteligência artificial, assim como herói de guerra, as contribuições de Alan Turing foram muito variadas e inovadoras”, comentou Mark Carney, governador do Banco da Inglaterra.

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