Mais louco é quem me diz: uma exposição para o que está fora da caixinha

Mais louco é quem me diz: uma exposição para o que está fora da caixinha

COLÉGIO SANTA MARIA

15 de fevereiro de 2019 | 07h30

 

Difícil tarefa quando pretendemos dividir, com todo o significado possível, uma experiência coletiva que se construiu através de pequenas e diversas ações.

Estamos falando aqui da montagem e apresentação da Exposição Qual a sua, a minha, a nossa loucura?, que aconteceu no Prédio Santa Cruz (Ensino Médio) no final do ano passado, como parte das atividades que encerraram o ciclo de comemorações dos 70 anos do Colégio Santa Maria.

Consideramos um projeto incomum por vários motivos. Talvez os mais importantes foram promover o encontro de vários componentes e docentes (Artes Plásticas, Fotografia, História, Filosofia, Sociologia) e trabalhar com uma inspiração transversal que, no caso de 2018, aproximou do Infantil ao Ensino Médio.

Na Exposição – que teve na entrada uma instalação montada pelo 4º ano do Fundamental I a partir da leitura da obra de Ernesto Neto, promovemos tal encontro pensando três Eixos que sutilmente se encontram no campo da criação: o amálgama entre arte-política-loucura, que foi marca da geração de 1968, a finalização do Projeto Jano e a produção da Área de Linguagens e Códigos.

Usamos como fio condutor o Eixo de 2018 para a Área de Humanidades que buscou questionar o papel das psicopatias nos nossos dias (por sinal, um tema trazido pelos alunos e alunas num processo muito interessante em que as turmas escolheram o que queriam que a Área trouxesse para o centro do debate). Assim, esse limite entre loucura e normalidade (ou aquilo que cada sociedade, em cada tempo, define como parâmetro do normal) foi revisitado por diversos componentes curriculares até chegar no material da Exposição.

A professora Rita Pisano com seus alunos e alunas do curso Cineclube.arte promoveu o debate a partir da discussão dos filmes “Bicho de Sete Cabeças”  (Brasil, 2001) e “Billy Elliot” (Reino Unido, 2000). Para quem conhece os filmes fica mais fácil entender a riqueza possível do debate: o que é ser normal? Como nossa sociedade ocidental lidou ao longo do tempo com aqueles que foram classificados como “fora da curva”? Os resultados levaram à criação de móbiles e desenhos acompanhados de play-lists que estiveram na exposição.

As turmas do curso de Linguagem Fotográfica da professora Elizabeth Fantauzzi, por sua vez, trabalharam com outras provocações. Alunas e alunos discutiram a produção de clássicos da fotografia, sempre imaginando a questão da proximidade da realidade (supostamente captada pela máquina) e as possibilidades interpretativas que são prerrogativas do artista-sujeito que fotografa e, hoje, edita suas fotos. Como finalização prepararam um ensaio fotográfico onde trabalharam esses limites sob suas perspectivas. Os ensaios abriam a mostra e dividiram espaço com outra produção de desenhos e colagens criadas a partir da discussão do impacto das intervenções artísticas do britânico Banksy.

Para completar, o grupo da 3ª série do Ensino Médio produziu no curso de História curtas-documentários sobre o ano de 1968 como narrativas desse incendiário período, especialmente no Brasil. Como parte da Saída de Estudo, que discute os Lugares de Memória que em São Paulo, representaram espaços de repressão e resistência à ditadura civil-militar no Brasil, o desafio das turmas era pensar uma geração que ousou tensionar os limites de normalidade nos campos político, social, dos costumes, das artes, das relações interpessoais.

Os temas e a capacidade criativa de nossas alunas e alunos já seriam suficientes para transformar essa experiência em algo marcante para a comunidade escolar. Ela, no entanto, foi ampliada pela possibilidade de dividi-la com muita gente. É assim que saudamos a oportunidade de receber alguns funcionários que ajudaram na montagem e na manutenção do espaço, professoras e professores de outros níveis do Santa Maria, colegas que no cotidiano encontramos rapidamente em situação de trabalho – como o pessoal da Biblioteca e de Recursos Humanos, orientadores, coordenadores e diretores.  Cada visita merece uma menção especial. No entanto, a visita do 3º ano do Fundamental I trouxe-nos um experimento particularmente feliz.

A troca promovida por tal experimento foi ímpar. Seja do Ensino Médio, que tentou aprender e se preparar para receber visita tão ilustre, seja do Fundamental I, com suas alunas e alunos, professoras, auxiliares, orientadora, que vieram nos ensinar a grandiosidade do olhar dos anos iniciais.

“A exposição proporcionou, aos alunos de 3º ano, um espaço potencializador de cidadania e vínculo de pertencimento. O estímulo às expressões de aprendizagem possibilitou a apreciação e reflexão de múltiplas ideias problematizadas por meio do encontro com outras culturas e processos identitários”, compartilha a professora Márcia Almirall, orientadora do 3º ano e grande parceira para o sucesso do evento.

As turmas ouviram com atenção a apresentação da monitoria, observaram e interpretaram as obras, fizeram perguntas, visitaram o prédio, entraram nas salas para experimentar o espaço dos e das estudantes maiores.

Entrevistamos, na última sexta, 8 de fevereiro,  uma dessas visitantes, a aluna  Manuela Edo Jaconetti, hoje com quase 9 anos, no 4º ano e muito vivaz na descrição de sua percepção da experiência.

Manu indicou como pontos máximos da visita a riqueza dos móbiles e uma instalação com cravos vermelhos colocada na abertura da Exposição, que falavam exatamente, interpreta nossa atenta visitante, do quanto diversos somos todos, mas, ao mesmo tempo, o quanto do humano nos identifica e aproxima. Disse-nos ser perfeitamente possível que alguém de sua idade frequente uma exposição e tente interpretar seus e suas artistas, mesmo que algumas coisas ainda tenham ficado no campo da dúvida. Disse-nos ainda que a monitoria pode ajudar a guiar o entendimento, mas, o tempo era muito curto para ver tudo. Visitar com as e os colegas de sala foi interessante, porque as pessoas podem trocar impressões e opiniões, mas, às vezes, olhar sozinho também pode ser bacana.

Na leitura singela, mas extremamente sincera de Manuela encontramos a certeza de que estamos no caminho certo quando pensamos Educação. Confirma nossa opção de tentar quebrar as paredes que separam nossas salas de aula, prédios, níveis, misturando tudo: administrativo, técnicos, pedagógico, manutenção, cozinha, portaria, tudo.

Manuela é nossa mais perfeita tradução. Diz-nos, encerrando o seu relato: “Se essa exposição ainda estivesse aqui, eu pediria para que todas as pessoas fossem visitar. Dá para ver que a loucura de um pode ser o normal de outro”.

 

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