Livre para conhecer, viver e ser

Livre para conhecer, viver e ser

Colégio Santa Maria

17 Agosto 2018 | 07h30

Autoria: Mayra Lourenço

 

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.” – Paulo Freire

Paulo Freire na obra Educar para a Liberdade nos ensina que ser livre passa pela capacidade dos seres de “atuarem segundo sua vontade”, ou seja, o autor entende que a ação deve ser motivada pela consciência plena de si e do espaço, passando pelo domínio do sujeito de seu lugar no mundo e da compreensão de suas potencialidades. A construção desse saber do sujeito sobre suas habilidades, potencialidades e historicidades, por sua vez,  abre espaço para a tomada de decisões que conduzirão à realização de desejos, sentimentos e vontades.

A compreensão da própria humanidade é condição sine qua non para a formação de alunas e alunos livres, na medida em que o entendimento de si como parte de uma coletividade histórica e culturalmente construída proporciona a superação de uma visão de mundo que naturaliza e congela a realidade, sem desvendar suas contradições. Mas, sobretudo, enxergar a realidade como construção e des/re/construção, possibilita a consciência de si como seres com plenas condições de agir sobre essa mesma realidade – dotada e produto da mudança -, reconhecendo seu potencial construtor e não apenas integrador ou reprodutor, mas trans –formador.

O Colégio Santa Maria entende que uma educação cidadã, democrática e guiada para a liberdade deve estar integrada com a compreensão do mundo na sua complexidade e, ao mesmo tempo, criar condições para a construção da subjetividade do sujeito pautada pelo exercício da alteridade e o reconhecimento de si na partilha com a coletividade. Nesse sentido, o desenvolve uma série de ações ligadas ao projeto de inserção social que nasce como uma tentativa de criar condições para acesso à pluralidade de experiências, visões de mundo e contextos.

O projeto se organiza em dois eixos: semanal-processual, desenvolvido durante o ano letivo, e o intensivo de imersão, realizado em uma semana durante o mês de julho, nas férias escolares dos alunos e alunas.

Reunidos semanalmente, as educandas e educandos realizam trabalhos sociais voluntários em três instituições distintas: Hospital Regional Sul, Gotas – centro de educação e recreação infantil e Centro de Acolhida de Idosos Jardim Umuarama. As atividades a serem desenvolvidas ao longo de cada semestre e em cada espaço visitado são previamente discutidas em reuniões coletivas envolvendo todos e todas que se dispuseram a participar do projeto.

Neste sentido, participar das reuniões é desenvolver a análise e compreensão dos diversos grupos de interação, organizar debates periódicos de avaliação sobre o trabalho e criar estratégias de ação para os elementos prévia e processualmente discutidos pelo coletivo. Trata-se, dessa forma, de criar espaços democráticos que priorizem a construção do conhecimento pela observação de um fragmento da realidade, pela exposição de diferentes maneiras de enxergar os problemas, pelo debate com apresentação de propostas e a construção consensual de encaminhamentos de intervenção social.

Articulados com os processos desenvolvidos ao longo do semestre, a viagem para Telêmaco Borba se coloca como um aprofundamento das experiências já partilhadas pelas alunas e alunos. Financiada pela venda de rifas ao longo de quase dois meses, todas e todos os envolvidos passam por um processo de preparação com aulas de História, Sociologia e meio ambiente direcionadas à realidade campesina e rural que encontrarão.

Como propõe Freire, trata-se de juntar a postura científica – como gosto da pesquisa e da constatação, com invenção, revisão e aplicação do saber – com a construção de situações que proporcionem ao educando experiências que lhe tragam condições de verdadeira participação, pois “há saber que só se incorpora ao homem experimentalmente, existencialmente, este é o saber democrático.” (Freire)

Na Viagem ao interior de Telêmaco Borba, alunas e alunos participam de experiências igualitárias de convívio, partilhando das mesmas condições de alimentação e hospedagem. Como o dinheiro arrecadado nas rifas vem de um financiamento conquistado coletivamente, todos partem das mesmas condições econômicas. Os almoços são feitos nas instituições visitadas, dividindo a refeição com crianças que pouco conhecem da experiência urbana ou idosos com as mais diversas faixas-etárias e condições de saúde.  Nesses momentos, todos são convidados a partilhar experiências, compartilhar conhecimentos, ouvindo outros modos de ser e estar no mundo ao passo que possuem a possibilidade de contribuir com sua própria visão de realidade e conhecimento por onde passam e com quem dividem a jornada.

É inegável o significado que esse trabalho assume na vida de todos e todas que participam do projeto. Nos relatos das alunas e alunos evidencia-se o quanto aprenderam sobre si – seus limites, desejos, medos – e sobre o que os rodeia, além de efetivamente transformar sua relação com a escola, os colegas e a comunidade ao redor. Como afirma a aluna Mariana:  “Em Telêmaco, sem dúvidas entramos em contato com a nossa humanidade, o que queremos de nós e o que vivemos com o outro, quantos tipos de história existem, quantas culturas e realidades pode haver num mesmo país e como podemos fazer para entender e respeitar a existência de cada uma…”

O projeto de inserção social proporciona um aprendizado sobre solidariedade e, acima de tudo, sobre respeito, com vista a produzir um mundo com pessoas sensíveis aos problemas sociais do país e, principalmente, com a habilidade de reconhecer no outro a mesma humanidade que o caracteriza.  Educar para a liberdade é trazer o complexo de relações e situações que determinam as vidas humanas e permitir que alunos e alunas tenham acesso e condições de decidir que cidadãos querem ser e que mundo pretendem construir.