Literatura e natureza

Colégio Santa Maria

16 de agosto de 2019 | 07h30

Autoria: Sandra Macedo

 

“O menino pegou um olhar de pássaro –

Contraiu visão fontana.

Por forma que ele enxergava as coisas

Por igual

como os pássaros enxergam…”

Manuel de Barros

 

Em tempos em que a alimentação chega aos nossos pratos sem podermos visualizar o crescimento da semente-grão; a terra que a acolhe; a água que a rega; os insetos que a polinizam;  as mãos que a manipulam, perdemos o verdadeiro sentido da palavra alimentar.

A etimologia da palavra “alimento” nos leva ao verbo “alere “ – “fazer aumentar, nutrir, alimentar”-  ao qual se liga tanto ao nosso alimento, o que nos faz crescer, quanto à palavra “aluno” do latim “alumnus”, criança de peito, lactente”- e, por extensão de sentido, “discípulo”. Refletindo sobre o alimento nosso de cada dia e no alimento pedagógico de cada dia de nosso aluno, nasce a questão de como a Literatura  pode  aproximar o que nos parece tão distante – alimento (grão) dos alunos –  e também o que está intimamente ligado ao ato de se alimentar: ecologia, ecossistema, sustentabilidade, entre outras tantas riquezas que rodeiam este tema.  Manuel de Barros, poeta maior, nos ajuda a refletir sobre isso. Ensina que o verbo deve “encostar na natureza” e nos sensibiliza para um olhar para a natureza.

Os poetas, como bem sabemos, têm sempre razão: Natureza e Literatura são indissociáveis.  É só olharmos os clássicos da literatura para observarmos como o verbo está sempre “encostado na natureza. Em “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, a natureza nos é  apresentada pelo olhar sensível de Diadorim;   em “O Maior Quintal do Mundo”, de Manuel de Barros,  o poeta nos traz o  mundo invisível  dos insetos; em “Carta”, de Pero Vaz Caminha, o olhar do estrangeiro para as terras recém descobertas; em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, as dificuldades de ser agricultor  etc.

Ao indicarmos esses livros para nossos alunos na 1ª série do Ensino Médio do Santa Maria, estamos alimentando-lhes. Colocando a literatura a serviço da sociedade, pois, enquanto expressão artística, a literatura nos sensibiliza e nos  faz pertencer a este mundo! A partir dela, o olhar para a natureza amplia e passamos visualizar, no nosso cotidiano, coisas simples como o alimento do nosso prato até visualizarmos  a sua produção, os seus grãos, as suas dificuldades, as questões de ordem do dia, como ecologia, ecossistema etc.

O aluno, com esse alimento, só tem a crescer, pois se  sente pertencente a este mundo. Percebe que também somos “naturais”! Também somos  “sementes”! Também precisamos de sol! Também precisamos de água! E terra! Esse crescimento de olhar  fica cada vez mais urgente no mundo em que o alimento é visto como mercadoria e não como aquilo que nutre os seres vivos.A literatura pode ser um desses instrumentos de sensibilização. Pode ampliar esse olhar de ligação-integração de sermos natureza e quem sabe,  a partir daí, nos  cuidarmos como sendo  um único ser.

 

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