Isolados por amor

COLÉGIO SANTA MARIA

12 de maio de 2020 | 07h30

Autoria – Caio Leite, professor de Ensino Religioso do Santa Maria

 

Havia um homem com seu corpo tomado pela lepra. Isso, por si só, já era bastante degradante e humilhante. As dores, feridas, rejeição por parte dos seus conterrâneos e a obrigação de ficar longe do convívio social eram um imperativo para que ninguém mais se contaminasse. Não sabemos seu nome ou sua idade, apenas um breve relato de sua condição.

 

Pecador, alguns diziam. Amaldiçoado, era a fala de tantos outros. O olhar de asco para a vida daquele homem estava presente na fala, no convívio e no trato. Certas marcas pesaram sobre ele e, quiçá, ele mesmo se perguntava o porquê daquela vida…

 

Cercado por julgamentos e abandonado, não lhe restava muito, a não ser esperar que a própria morte viesse lhe visitar. Por ser comum, não teria um fim com honrarias, questionava se sua própria família lhe daria um fim digno ou se terminaria em uma vala como tantos outros. Não tinha dignidade, não tinha apreço, apenas lhe bastava seu mal.

 

Assim o tempo passava e, num certo dia, encontrou um homem capaz de lhe trazer a dignidade que a doença lhe tirara. Foi o olhar, o cuidado, a atenção, o carinho e o amor ofertados que mudaram a sua sorte. Ali acontecia um milagre!

 

Aquele encontro foi transformador. Como poderia um único homem com suas palavras transformar uma vida? Aquilo era um sinal divino. Poder. Milagre. Com tudo isso, a lepra já não era mais um problema e o sinal da transformação se expressava nos abraços e na alegria exuberante em seu rosto.

 

No seu íntimo, ao se deitar, quando estava recluso em seu quarto, sempre lhe vinha à mente sua história, a dor e a rejeição pela qual passou. Agora, mesmo sendo aceito, sempre lhe cabia pensar sobre o passado e dar novos sentidos para o futuro.

 

Essa narrativa, adaptada do texto no qual Jesus cura um leproso, tem uma lição social extraída de sua mensagem espiritual: a felicidade do homem após a cura porque ele poderia viver com seus semelhantes.

 

Se em tempos passados a lepra corroía o convívio entre doentes e saudáveis, exigindo distanciamento de quem estava acometido, agora vivemos tempos diferentes: o isolamento não é mais por desprezo ou ojeriza, é por amor.

 

É pensando no cuidado, carinho, solidariedade e bem-estar coletivo que podemos extrair desta narrativa uma das lições mais importantes para ressignificar nossas vidas: valorizemos os abraços, o carinho, o afago e o toque de quem amamos, pois, ao escolher nos isolarmos socialmente, estamos salvando a humanidade.

 

Não seremos mais os mesmos, mas não sabemos o que seremos. É tempo de nos lançarmos à vida com mais intensidade, espiritualidade e amor. Sem chavões ou especulação, podemos afirmar que esse tempo nos tem feito refletir e repensar nas imagens dos rostos das pessoas amadas e que estão distantes.

 

Os longos abraços, os encontros com os amigos, o almoço na casa da vó, o happy hour depois do trabalho, a ida ao cinema com a família e o sábado em casa sem ter nada para fazer terão novos significados quando vencermos a pandemia e seremos como o homem restaurado de sua doença de nossa história: reclusos em nossos quartos, daremos novo sentido para nossa história.

 

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