Geografia e a pandemia

Geografia e a pandemia

Colégio Santa Maria

26 de junho de 2020 | 07h30

Autoria – Adriano Skoda

 

Desde fevereiro, com o início do ano letivo (ainda presencial), o tema da pandemia se colocava como algo ainda distante do cotidiano das pessoas no Brasil, mas já despertava nossa atenção e curiosidade. Ainda sem saber como o vírus se comportaria em escala global, iniciamos junto aos estudantes da 3ª série do Ensino Médio do Santa Maria uma série de análises sobre o vírus, sua disseminação e as características políticas, econômicas, tecnológicas e sociais do país onde o vírus foi identificado inicialmente.

A China, país indispensável para compreensão da globalização – tema do curso da 3ª série – vivencia desde o fim da década de 1970 um intenso processo de reformas econômicas que tem levado o país a se tornar o principal produtor de mercadorias e o principal centro de expansão urbana do mundo, mobilizando quantidades inimagináveis de concreto para a criação de cidades, estradas, indústria, portos e aeroportos.

Nesta lógica de desenvolvimento, a China tem ampliado suas cidades para áreas compreendidas anteriormente como rurais ou “naturais”, transformando habitats e colocando em contato espécies “selvagens” com humanos. Se por um lado se pode correlacionar o aparecimento de doenças como a SARS (2002) ou a COVID-19 (2019) com o avanço da urbanização, isto não basta para compreender o alcance global do vírus.

Para tentar desvendar tal fenômeno, buscamos analisar em sala os possíveis indícios que sustentariam tal processo. Desta forma utilizamos como base de análise o mapa disponibilizado pela Universidade de Johns Hopkins, que naquele momento – fevereiro de 2020 – apontava a maior incidência de casos na China e uma menor quantidade nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Austrália. Territórios como África e América do Sul não haviam diagnosticado nenhum caso até o momento. O que explicava tal fenômeno?

Uma busca pelas rotas aéreas chinesas nos deu uma boa pista. Quando sobrepostos os mapas da incidência do vírus e as rotas aéreas mais frequentes que conectam a China com o resto do globo, encontramos uma correspondência impressionante. Eram exatamente as regiões com casos diagnosticados que recebiam a maior quantidade de voos provenientes da China.

Tal dado contudo não basta para a análise, é necessário complexificá-lo, uma vez que desde 2005 levantamentos estatísticos apontam que quase todos os países do planeta mantêm relações comerciais com a China. Foi necessário então pensar na qualidade das relações comerciais, qual tipo de negócios são feitos e quem são as pessoas que transitam com mais frequência entre China e os países do centro do capitalismo. A natureza dos negócios que envolvem a China com os países que mantêm rotas aéreas mais frequente se concentra majoritariamente em desenvolvimento tecnológico e estruturas de segurança, fazendo com que empresários, políticos e cientistas circulem com mais frequência entre estes territórios. Relações comerciais entre China e África e América do Sul mobilizam outro tipo de negócios, voltados principalmente para produtos primários (mineração e agronegócio), que necessitam de relações menos dinâmicas do que a produção industrial de ponta.

Assim, a disseminação do vírus corresponde à intensidade de trocas que acontecem a partir das demandas just in time que a lógica neoliberal impõe para a economia do século XXI. Com esta reflexão, tentamos desenvolver junto com os estudantes a compreensão da pandemia como um produto do seu tempo histórico – determinado pela globalização –, seja pela circulação de pessoas ou mercadorias, ou pela interconectividade própria deste momento que vivemos.

Geografia e saúde se juntam em sala de aula para compreender a lógica de disseminação do vírus e as possíveis formas de atuação para contenção da pandemia.

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