Física e Futebol Americano: como unir essas duas paixões

Física e Futebol Americano: como unir essas duas paixões

COLÉGIO SANTA MARIA

03 Março 2017 | 07h30

Autoria: Rafael Correa

A necessidade de trabalhar a Física fora de sala de aula se torna cada vez mais obrigatória hoje em dia. Com fácil acesso às novidades mundiais, os alunos ficam interessados em entender e descobrir “a Física das coisas”.

Nesse retorno das aulas, o assunto do momento nas aulas de Física do Colégio Santa Maria foi o evento esportivo conhecido como Super Bowl. Realizado há mais de cinquenta anos, representa a final do futebol americano profissional, a NFL, definindo o campeão da temporada. Segundo pesquisas internacionais, o Super Bowl é o evento esportivo mais visto no mundo. Aparentemente, algo muito distante de nós, brasileiros. Entretanto, nos últimos cinco anos, com o aumento das transmissões nacionais via emissoras pagas e internet, o futebol americano tornou-se uma febre nacional, principalmente nos adolescentes entre 14 e 17 anos.

Agora, o que a Física tem com isso? Muita coisa! Por ser um esporte de estratégia, exige muita habilidade de seus jogadores e, particularmente, esse Super Bowl de 2017 foi extremamente emocionante e cheio de lances “fisicamente impossíveis”. E somado ao fato de ser um apaixonado de longa data pelo esporte, algo que os alunos do Colégio Santa Maria já sabem desde sempre, surgiram as perguntas nas aulas sobre a partida final: “Professor, você viu aquele passe do Tom Brady?”, “Nossa professor, como que o Julio Jones conseguiu fazer aquela recepção?”, “Como que o Stephen Gostkowski errou aquele chute professor? Tinha influência do vento? Ele chutou em que parte da bola?”.

É lógico que esse artigo não tem o intuito de responder todas as perguntas que surgiram em sala, mas gostaria de destacar alguns fenômenos físicos desse esporte para, quem sabe, aumentar a sua curiosidade sobre o mesmo. Nesse momento vou resgatar os quatro temas da Física Clássica (Mecânica, Eletricidade, Óptica e Física Térmica) para expor o quanto de Física existe nesse esporte.

Começamos com a Física Térmica. Aqui podemos destacar que não tem “tempo ruim” para o futebol americano. Ele pode ser disputado em qualquer condição meteorológica. A NFL é disputada entre os meses de Setembro e Fevereiro, em todo o território americano. O que significa poder jogar num dia típico de verão de 30°C em Miami, Flórida, mas também com uma temperatura de -26°C, como foi no dia 31 de dezembro de 1967 em Wisconsin, Green Bay. O jogo ficou apelidado de “Ice Bowl”. Por isso, os jogadores costumam utilizar uma luva térmica para lançar/receber a bola. Equipamentos como ventiladores, umidificadores e aquecedores aparecem com muita frequência no banco de reservas.

Já no caso da Óptica, existe uma regra interessante. Em todas as partidas, os uniformes dos times devem ter cores contrastantes. Assim, se o time da casa opta em jogar com um uniforme claro, necessariamente o time adversário deve usar escuro e vice-versa. Nesses últimos anos, a NFL está se preocupando com as pessoas portadoras de daltonismo e sempre realiza um teste de combinação de uniforme antes das partidas para que todos possam acompanhar. As iluminações nos estádios são posicionadas de tal forma que minimiza o efeito de sobra nos campos. Além disso, os jogadores têm o costume de passar no rosto, logo abaixo dos olhos, uma tinta preta para evitar o reflexo dos raios que vêm do Sol ou dos refletores.

Fugindo um pouco para a Ondulatória, os estádios são construídos para favorecer o grito que vem da torcida. No futebol americano, a torcida faz bastante barulho quando o time está na defesa, diferentemente do futebol da bola redonda em que a torcida grita quando o time está no ataque. Motivo de ser diferente? Para dificultar a comunicação do time que está atacando. Os dois estádios considerados “terríveis” para os adversários nesse quesito são os do Seattle Seahawks e do Kansas City Chiefs, este último sendo o detentor do recorde de 142,2 dB de nível de intensidade sonora, maior do que um grande show de rock, que tem em média 130 dB.

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Passando para a Eletricidade, talvez seja o esporte mais tecnológico de todos. Toda a parte de comunicação entre técnicos, coordenadores e alguns jogadores é feita por rádio (mesma tecnologia dos rádios de segurança). Quando podem, os árbitros recorrem às imagens gravadas para discutir jogadas polêmicas, já que diversas câmeras sempre estão distribuídas no estádio.

A Mecânica talvez seja a área que tenha a maior abordagem, e que desperte a maior curiosidade. Podemos destacar diversas coisas.

Começamos pelo lançamento da bola. Por ser oval, ela precisa girar em torno do seu eixo longitudinal para que possa ter menos influência da resistência do ar. Desse modo, a possibilidade da bola sofrer desvio devido ao vento é pequena. Ainda sobre o lançamento, pode-se variar o ângulo de acordo com a estratégia. Com um ângulo maior, resulta-se uma maior altura e um menor alcance, privilegiando um recebedor alto, ou um com um ângulo de 45° para atingir um maior alcance, privilegiando um recebedor rápido. O lançador, chamado de quarterback, famoso por lançamentos longos é o Aaron Rodger, do Green Bay Packers, que em seu último lançamento longo conseguiu ter um alcance horizontal de 42 jardas (equivalente a 38 metros).

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E não é só de lançamento que vive o futebol americano, tem momentos em que se recorre ao chute para obter uma pontuação. Cairo Santos, o primeiro brasileiro a jogar na NFL, é o chutador, chamado de kicker, do Kansas City Chiefs e acertou um fiel goal (quando a bola, ao ser chutada, atinge dentro do “Y”) a uma distância horizontal de 53 jardas (equivalente a 48 metros). Enquanto a velocidade do lançamento varia entre 20 e 25 m/s, a velocidade do chute varia entre 25 e 30 m/s.

Ainda temos os corredores, os chamados running backs, que podem pontuar ao correrem com a bola e entrar na zona de pontuação (endzone). Aí a tarefa é mais complicada para a defesa, pois é necessário impedir a passagem de um jogador com um pouco mais de 90 kg com uma velocidade média próxima de 25 km/h. Não é a toa que os jogadores da linha de defesa são fortes e têm em média 130 kg, já que no momento da colisão podem bloquear o corredor. Le’Veon Bell, do Pittsburg Steelers, é um dos melhores corredores atualmente e em um jogo já correu 236 jardas, equivalente a 215 metros. Parece pouco, mas não é, já que em um jogo um corredor tem uma estatística média de 100 jardas, equivalente a 91 metros.

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Poderíamos citar diversos outros aspectos do esporte, mas o intuito nesse momento é reforçar que podemos resgatar a Física em diversas situações do cotidiano, não só apenas no futebol americano. Este, por sinal, acabou sendo destacado por ser de interesse comum entre mim e os alunos, mas também podemos trabalhar com outras áreas, seja no esporte, na arte ou na literatura. O essencial é estabelecer um diálogo aberto e transparente com os alunos para que o aprendizado em Física tenha um agente motivador. E é nisso que nós do Santa Maria acreditamos: a Física tem que ir além da sala de aula.

Crédito das fotos: http://espn.uol.com.br (todas as fotos são do Super Bowl 2017)