Sobre a filosofia e a sociologia no novo Ensino Médio

Sobre a filosofia e a sociologia no novo Ensino Médio

Colégio Santa Maria

28 Setembro 2018 | 07h30

Autoria: Marcos Iki

 

A reforma do Ensino Médio, aprovada em 2017 por medida provisória, promove uma série de mudanças na educação básica brasileira. Uma das mais polêmicas é a que tange à retirada da obrigatoriedade de disciplinas, tais como Artes, Educação Física, Filosofia e Sociologia.

A história dessas duas últimas disciplinas na grade curricular brasileira é notória: implementadas na primeira metade do século XX, foram substituídas ao longo de toda a ditadura pela Educação Moral e Cívica, de caráter acrítico e nacionalista. Somente com a retomada do estado democrático de direito, e muito morosamente, passam a constar do programa da educação básica no país. Os conteúdos constam na Lei de Diretrizes e Bases, aprovada em 1996, mas somente em 2008 tornam-se efetivamente parte obrigatória da grade curricular.

Faz-se necessário observar quão sintomática é a presença destas duas disciplinas relacionadas a períodos de maior respiro democrático na história do país. Na medida em que ambas propõem uma reflexão embasada sobre a modernidade, sobre as relações de poder, sobre participação política, sobre o caráter ideológico do discurso social, configuram-se como ameaça às formas de controle e de coerção social. São, rapidamente, rotuladas como dogmatismo, defesa de ideologia, doutrinação.

Um ensino destas disciplinas comprometido com a democracia, tal como entendido no Colégio Santa Maria, propõe justamente o contrário: a experiência de conhecer pressupostos de diferentes paradigmas políticos; a crítica da realidade, não apoiada em opinião, mas em métodos científicos; o reconhecimento da diversidade humana por meio do encontro com a pluralidade dos discursos sobre o mundo. Ademais, quer queiramos ou não, quer saibamos ou não, todo conhecimento está fundado em paradigmas epistemológicos, em todas as áreas do conhecimento humano. Tomar ciência disto – um objeto privilegiado da filosofia – é promover um agir e um conhecer que pode superar a reprodução do mundo de forma irrefletida e reificada.