Estudos do meio: o aprendizado que não se encerra na escola

Colégio Santa Maria

30 de agosto de 2019 | 07h30

Entre as diversas metodologias e práticas pedagógicas, o estudo do meio revela-se uma experiência positiva que atravessa diversos conteúdos de forma efetiva. Para que seja uma ferramenta eficaz de aprendizagem, precisa, em primeiro lugar, dialogar com conteúdos e conhecimentos das áreas que se propõem ao trabalho. Não se trata, portanto, de uma atividade de recreação ou um “respiro” para o final do bimestre/semestre. Envolve muito trabalho e planejamento ao longo do ano e acertos pelo caminho.

Numa perspectiva de aprendizagem significativa, os temas precisam dialogar com as disciplinas envolvidas, precisam fazer sentido político-pedagógico, bem como inserir-se na proposta da escola.

No Colégio Santa Maria, os estudos do meio acontecem nos segmentos do Ensino Fundamental II e Médio e se dão ao longo do ano, envolvendo séries e áreas de conhecimento. No Ensino Médio, os estudos ficam por conta da equipe de Ciências Humanas com apoio das respectivas séries.

O planejamento é essencial para o trabalho e as intenções dessas saídas são discutidas pelas/os professoras/es e coordenação, tendo claro o diálogo com os problemas contemporâneos da cidade, da sociedade e das pessoas que vivem e trabalham em diferentes condições e precariedades. É um estudo que articula passado-presente-passado e convida as/os alunas/os refletirem sobre diversos temas que não podem ser silenciados ou ignorados pela escola.

Outro aspecto importante é que o projeto não se inicia ou se encerra no local que será o objeto de observação. Todo um pré-campo deve ser realizado pelas áreas envolvidas e que fazem parte do planejamento de um curso. Introdução ao tema, oficinas, aulas preparatórias, orientações e roteiros de estudo antecedem e fazem parte do currículo das disciplinas.

O dia ou os dias das saídas também são marcados por procedimentos específicos que foram previamente debatidos. Geralmente os materiais de campo envolvem um caderno de registros e demais materiais que alimentem o trabalho.

Um dos aspectos mais significativos dessa experiência é o pós-campo. Toda uma miríade de observações e registros ganham contornos através das diversas formas de materialização: documentários, infográficos e álbuns fotográficos são resultados concretos desses estudos.

Ele também continua através de diversos itinerários pela cidade, exemplo do estudo da 2ª série do Ensino Médio, que promovem um encontro entre o tema gerador, “Arquiteturas da desigualdade”. Esse projeto parte da observação e discussão sobre os diferentes espaços de uma fazenda de café, a fazenda Ibicaba, interior do estado e seus diferentes espaços de poder e vida: a casa grande, a senzala e a vila dos imigrantes. A partir desses lugares tão distintos, abre-se uma reflexão sobre a construção de uma memória negra, imigrante e das elites a tentativa de se apagar a escravidão e seus desdobramentos para as/os milhares de negras/os no passado e no presente. O trabalho segue pensando sobre essas dimensões através de itinerários na cidade de São Paulo. Uma ocupação na zona Sul, o Museu Afro Brasil, a arquitetura do café no centro histórico e uma cartografia negra que busca entender como, no processo de expansão urbana, a memória negra foi apagada pelas elites e pelo Estado.

Esse breve texto não consegue, nem de longe, dar conta da riqueza dessas experiências que não se encerram em aula. Os temas desses estudos se mantêm vivos nos debates na escola, nos corredores, nas casas e na seriedade dos temas e no envolvimento das/os educandas/os.

 

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