Espaços de escuta

COLÉGIO SANTA MARIA

08 Junho 2018 | 07h30

Autoria: Adriano Skoda

Nos últimos dias de aula de 2017 professores e alunos do Ensino Médio do Colégio Santa Maria realizaram uma assembleia para deliberar o tema do projeto anual da área de ciências humanas que seria desenvolvido ao longo do ano seguinte. Entre diversos temas defendidos pelos estudantes, que transpassavam assuntos como empreendedorismo, política, sexualidade, saúde mental, entre tantos outros, os alunos deliberaram por ampla maioria definir como tema para o projeto de 2018 a saúde mental. A defesa de tal projeto se deu, pois a percepção de que os jovens de hoje tem vivenciado uma série de pressões e ansiedades de distintas naturezas, os têm forçado a lidar com estas condições de modo individualizado. A intenção dos estudantes era, assim, conseguir trazer estas angústias e reflexões para o espaço comum dentro da escola.

O projeto de área foi intitulado Projeto Jano e, após algumas atividades realizadas no início de 2018, a notícia do suicídio de dois estudantes do colégio Bandeirantes trouxe a discussão sobre saúde mental para a ordem do dia. As conversas em sala com os estudantes revelavam uma enorme dificuldade destes encontrarem espaços para refletir sobre seus medos, incertezas, sexualidade e/ou abusos, sem serem julgados. Nas conversas com os estudantes ficou explícito que mais do que lugares de fala, muitos dos alunos buscavam espaços de escuta. Criar tempo para ouvir seus colegas, entender as dificuldades que estes estão enfrentando, ter tempo para pensar em suas experiências e a partir delas buscar apoiar os demais é algo desejado, mas ainda muito distante da rotina escolar, que muitas vezes impõe um ritmo frenético, em que a maior parte do tempo dos estudantes está ocupada por deveres e o tempo ocioso se transforma em um tempo da não reflexão.

Estaríamos sem norte para buscar avançar na construção de espaços de escuta se não fosse a experiência concreta que algumas alunas têm realizado ao longo dos últimos anos. Mobilizadas há quatro anos no Coletivo Santa Sororidade, as alunas do Ensino Médio criaram, entre tantas ações do coletivo, um espaço de acolhimento e solidariedade semanal em que, no período do contraturno se reúnem para falar sobre as questões e problemas que tem enfrentado cotidianamente. Este espaço de escuta, por mais efêmero que seja, permite a construção de uma prática pouco usual em nossas escolas, permitindo a construção de um vínculo de comunidade através da escuta e da busca por soluções dos problemas.

Se, contudo, a experiência do Coletivo Santa Sororidade tem muitos méritos, isto não significa que as inseguranças e os medos vivenciados cotidianamente estejam superados e que estas estudantes e a própria escola estejam livre destas tensões. O desafio que permanece, e ao qual ainda buscamos dar contornos mais claros é o de como a escola no século XXI consegue auxiliar os jovens, e por que não também os adultos, a criar os espaços de escuta e também ação que tem se mostrados tão escassos em nossa sociedade. Experiências existem, cabe a nós assumirmos essa tarefa e criarmos essas ações para os diferentes contextos.

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