Entre a ficção e a realidade: literatura e geografia na sala de aula

COLÉGIO SANTA MARIA

19 de março de 2021 | 07h00

Autoria – Adriano Skoda

A pandemia, declarada oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020, recém completou um ano e desde então impôs uma nova dinâmica para a população global. Lockdowns, distanciamento social, uso de máscaras, entre outras medidas, foram palavras incorporadas ao cotidiano e passaram a reorganizar a vida no espaço público e chegando até ao espaço da escola.

Com o ensino virtual, implementado a fim de preservar vidas diminuindo a transmissão comunitária do vírus, as escolas tiveram que reorganizar a prática pedagógica. Este modelo de ensino impôs uma série de dificuldades, uma vez que o vínculo da sala de aula foi parcialmente rompido na substituição de corpos por telas e obrigou a equipe pedagógica a buscar outras formas de criar vínculos com os estudantes.

Foi neste contexto que o curso de Geografia da 3ª série do Ensino Médio do Santa Maria mobilizou, em um trabalho conjunto com a disciplina de História, a literatura como uma ponte sensível capaz de criar um vínculo entre a ficção e a realidade e permitir, a partir desta, a elaboração de uma análise crítica dos eventos geopolíticos então (ainda) em curso.

No esforço de, parafraseando Oscar Wilde, compreender como, às vezes, “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, fomos buscar no conto de Jack London, intitulado “Uma invasão sem precedentes”, uma ponte entre os eventos pandêmicos do século XXI e aqueles retratados pelo autor no conto escrito no longínquo ano de 1906.

Inspirado por sua traumática experiência na cobertura jornalística da guerra russo-japonesa (1904-1905), na qual vivenciou os horrores da guerra e testemunhou o uso dos mais recentes avanços tecnológicos para a guerra, London construiu uma ficção que narra a ascensão da China como uma nova potência política e econômica global, situação que desencadeia uma série de tensões diplomáticas e leva a um conflito geopolítico global sem precedentes.

O conto ficcional surpreende por sua verossimilhança e atualidade. Escrito em um contexto anterior às duas Grandes Guerras, à Guerra fria, à revolução chinesa, ou mesmo ao uso das armas químicas em guerras pelas potências industriais, Jack London, como um oráculo, anunciava a ascensão de uma China potência, algo que só ocorreria 100 anos depois.

Foi o mote perfeito para instigar a imaginação e a curiosidade em torno do papel ocupado pela China no século XX e XXI, percorrer os caminhos de seu desenvolvimento e refletir sobre as disputas político-comerciais que estão em curso desde a deflagração da Guerra Comercial entre Estados Unidos e China. A literatura se tornou então uma ferramenta fundamental para, ainda que momentaneamente, transportar estudantes e professores a um outro espaço-tempo ficcional e permitir analisar a própria pandemia a partir de outros contextos, em diálogo com a realidade.

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