É preciso falar da vida

Colégio Santa Maria

29 de maio de 2020 | 07h30

Autoria: Adilma Alencar

 

O contexto da pandemia nos fez forçosamente desacelerar. Mas é preciso muita calma, porque com a internet talvez tenhamos a sensação (falsa) de que podemos continuar no mesmo ritmo, é só fazer uma adaptação aqui, outra ali e, pronto, o processo de ensino-aprendizagem continuará, as datas continuam, os planos são os mesmos. É mentira, nada é como era há três meses. Se não levarmos em conta tudo o que testemunhamos agora em nossa casa, sairemos ilesos, não dos efeitos da pandemia, isso é impossível, mas da experiência dolorida que experimentamos agora. Seria terrível experimentar a anulação da nossa sensibilidade.

É importante notarmos as frestas por onde uma estreita faixa de sol ainda insiste em aquecer a casa: a saúde dos nossos, os pulmões sãos, a carne jovem dos filhos, a beleza das rugas e das resistências dos avós, nesse país tão maravilhoso e cruel. Esse raio de sol se anuncia durante as refeições, nas conversas animadas. Se um dos que ocupam a mesa olha atentamente e percebe que o cabelo de um outro cresceu desordenadamente, ou como é a barba dos jovens que estão agora cheios de amor guardado para as namoradas que estão longe, se um ao outro enxerga, ainda há esperança. Reparem nos raios de sol deste mês de maio.

Mas reparem também que essa casa está fixada num terreno de lama e lodo e que no mês de maio durante muitos anos comemoramos a abolição da escravidão, tão mentirosa, que meninos e homens negros  que vivem nas nossas periferias temem usar máscaras, a máscara que os protege da vida os aproxima das balas da polícia, essa polícia que de repente ronda o condomínio e te faz sentir segurança. Para que tua casa tenha mais sol entrando entre as cortinas será preciso coragem de falar sobre o lodo encarnado na terra onde estes alicerces estão fincados.

Coragem para nós, eu os convido: escola, família. É preciso que a vida mais do que nunca seja o grande tema da aula. Não um paliativo para aliviar nossa profunda insegurança, mas que a vida seja a necessidade de que saibamos da historicidade dos nossos nervos. Estamos todos acuados diante de um medo invisível que nos tira o ar, se não nos dermos conta de que é preciso, com coragem, enfrentar a lama toda sobre a qual nossa história se fez e se faz, mesmo que nossos pulmões aguentem, a nossa parte bonita terá morrido. É preciso, novamente, sonhar e efetivamente contribuir para relações mais honestas.

Há por toda parte muita cobrança, um círculo crescente de arremedo para que o ano letivo seja cumprido, para que o comércio volte, para que a economia volte. A escola deve ser o espaço para o pensamento, pensar sem levar em conta o contexto da pandemia, seria experimentar a filosofia do Faquir, como nos ensinou o mais cômico dos hipócritas, Brás Cubas, e esperar que a observação da ponta do nosso nariz nos livre dos males sociais.

Falar da vida é falar, com coragem, da morte que nos ameaça. É preciso dizer para nossos alunos e alunas, com coragem, que entre nós, muitas famílias perderam até o direito ao luto. E se ouço, como Brás Cubas, objeções, de que a escola deve falar da erudição dos clássicos, comecemos com Antígona. É preciso coragem para falar da vida, a de todos nós.

 

Adilma Alencar é professora de Língua Portuguesa e Projeto de Vida do Ensino Médio do Santa Maria

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