Do Jongo ao Funk

Do Jongo ao Funk

Colégio Santa Maria

18 Novembro 2016 | 07h30

Autoria: Mayra Oliveira Lourenço

Nele (neste gênero musical) estavam presentes “as mais detestáveis contorções musculares, sem cadência, os mais inocentes requebros das pernas e braços seminus, os mais ousados saltos, as saias esvoaçantes, a mímica mais nojenta, em que se revelava a mais crua volúpia carnal” (SCHWARCZ, 2001, p. 613).

Ao ler este trecho, qual ritmo musical vem à mente? Qual será a música que diretamente associamos à sensualidade?

Ao contrário do que se pode imaginar, o texto acima não faz referência ao FUNK de nossos dias, mas descreve como o Jongo – um ritmo muito parecido com o samba – era lido por alguns sujeitos durante o século XIX.

Essa aparente semelhança entre o Jongo, do século passado, e o FUNK, do nosso tempo, nos traz uma questão: como são construídas as narrativas sobre os gêneros musicais? Em que medida um estilo pode representar uma determinada visão de mundo? Como a música pode servir de objeto de estudo? O FUNK pode ser tema de discussão na escola?

No curso “Do rei do Congo a Tati quebra-barraco: notas de música e cultura negra e afro-brasileira”, oferecido no Currículo Diversificado do Ensino Médio no Colégio Santa Maria, parte-se da arte para pensar como se constroem as relações de poder e resistência das populações negras e marginalizadas ao longo da história do Brasil.

O Jongo, por exemplo, já fora proibido nos espaços públicos e repreendido pelas forças policiais sob a alegação de baderna e de imoralidade de suas danças. As letras do Jongo são registros de resistência à escravidão, de afirmação da herança africana, com os atabaques e referências às divindades, e de construção de narrativas dos grupos historicamente marginalizados, em um espaço de sociabilidade em que os negros escravizados se tornavam sujeitos.

Séculos depois, influenciado pela música negra americana, o FUNK também pode ser visto como um retrato da realidade. Suas letras e as experiências nelas contidas mostram quais são as perspectivas de seus produtores ou como esse ritmo foi apropriado pelo mercado para atender os interesses de alto rendimento com pequenos gastos para seus produtores, como se tornou a vertente do FUNK ostentação, por exemplo.

E, ao contrário do que se imagina, as temáticas encontradas no FUNK englobam um universo rico de temas, que abordam desde questionamentos sobre as desigualdades e opressões de gênero, passando por uma narrativa alternativa da história do Brasil, até amor, riqueza e prazer sexual. E cabe fazer uma ressalva nesse ponto e lembrar que o sexo era um dos lemas do Rock’in roll, e este gênero hoje enaltecido também já fora visto como imoral.

A característica marcante do FUNK é a relação com a realidade vivida, a partir de uma linguagem direta. A viabilidade de produção de uma música é outro traço que merece destaque, na medida em que não se faz necessário ter instrumentos musicais ou ter acesso a um estúdio de gravação, pois basta um computador para que seja produzido e uma câmera para gravar os artistas e colocá-los na internet.

A produção e divulgação acessível faz do FUNK uma produção artística democrática, heterogênea e riquíssima para pensar as contradições da contemporaneidade em diálogo com as experiências concretas dos educandos, na medida em que são mobilizadas as referências e os temas em que se confrontam diariamente. Assim, falar de FUNK na escola é abrir um espaço para discutir diversas percepções da contemporaneidade e seus significados simbólicos, políticos e históricos.

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