Diálogos necessários em tempos de isolamento

COLÉGIO SANTA MARIA

23 de outubro de 2020 | 07h30

Os tempos de ensino remoto evidenciaram algumas dificuldades do processo ensino-aprendizagem, entre elas o desenvolvimento de mecanismos de estudos autônomos, da competência da leitura e interpretação e de uma educação comprometida com a mudança.  Essas dificuldades são inerentes à ação educativa e, ao mesmo tempo, dimensões essenciais do processo pedagógico. Dito isto, é importante pensarmos em como atingir alunas/os em suas casas e estimular estudo e leituras em tempos tão sombrios.

Uma das estratégias que temos utilizado em aula são os diálogos entre áreas de conhecimento, as ditas “disciplinas”, no Colégio Santa Maria. Essa prática continuada pode promover a curiosidade entre, por exemplo, autoras/es e seu tempo. Para entendermos melhor a obra de Lima Barreto, por exemplo, é fundamental sua leitura, ao menos de alguns de seus contos e crônicas. Durante as videoaulas, essa leitura compartilhada, feita pelas/os alunas/os, juntamente às professoras de História e Literatura das 2ªs séries da escola, abriu um universo de possibilidades de discussão. Quem é esse autor que satiriza o país e suas desigualdades? Com quem e sobre quem ele “fala”?

Essa experiência compartilhada torna-se uma porta para a leitura, mas que não se encerra, pois a ideia é que se torne prática mais constante e autônoma, possibilitando que novos e diferentes textos e obras façam parte da vida das/os alunas/os dentro e fora da escola.

Em diálogo com as crônicas de Lima Barreto, outros documentos e conceitos emergem:  a análise de imagens (reprodução de fotografias, pinturas) de plantas da cidade do Rio de Janeiro, de discussões sobre o racismo imbricado na sociedade pós libertação das/os escravizadas/os, dos processos de exclusão das/os trabalhadoras/es dos espaços centrais da cidade, da precariedade da vida, dos estigmas sobre as mulheres, das injustiças, das hierarquias. Assim, podemos apresentar não só o autor e sua obra, como o seu tempo histórico, seu olhar sobre esse tempo e, principalmente, para o nosso.

Ouvir e aprender com pesquisadoras/es de outras instituições, com outros olhares, por exemplo, sobre a escritora Carolina Maria de Jesus com a antropóloga  Dra. Marina Pereira de Almeida Mello foi outra oportunidade que alunas/os do Colégio tiveram e assim conhecer mais sobre a obra dessa mulher única, mas também o retrato de tantas brasileiras.

Outra experiência fundamental diante da pandemia e do isolamento foi dialogar com as ciências da natureza.  Discutir em conjunto o sentido e significado de Ciências, uma vez que a ciência é fruto do seu tempo, entender que os mecanismos biológicos não são suficientes para percebermos a forma desigual da expansão da doença. Como a sociedade, a cidade, o centro, as periferias, os grupos étnico-raciais foram tratados pelos órgãos públicos e expostos a condições completamente diferentes. É o diálogo entre biologia, química, geografia, sociologia, história pungente e cheio de sentidos na escola.

As discussões e aprendizagens que são possibilitadas por esses encontros entre áreas podem e devem tornar-se prática constante durante e após o ensino remoto. Nossa retomada ou tomada do espaço escolar novamente deve ser marcada por um  fazer pedagógico repleto de sentidos e de esperança, sentimento que não é imóvel ou alienado, mas que se faz vivo pela compreensão de outros tempos e de nosso próprio, através da  curiosidade, da indignação e do entendimento de que, sem conhecimento, propiciado pelas trocas e pelos estudos, apenas vivemos sem compreender nosso mundo.

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