Deslocando o olhar para fora

Deslocando o olhar para fora

COLÉGIO SANTA MARIA

11 de outubro de 2019 | 07h34

Entre as muitas necessidades da tarefa da Educação, uma das mais centrais é promover o deslocamento. Deslocar o eixo das narrativas; deslocar conceitos para que sejam mobilizados em outros contextos; deslocar a perspectiva, daquelas dos estudantes, para a daqueles que estão distantes ou invisíveis.

Uma experiência central para isso parte de um deslocamento concreto, o estudo do meio, e aqui se segue um breve relato sobre um deles: a visita à ocupação do movimento por moradia Nova Palestina. Esta saída foi complementar à ida à Fazenda Ibicaba, em Limeira, que mantém de pé construções que foram elementos centrais na história das relações econômicas e sociais do país: a casa-grande, a senzala, a casa dos colonos estrangeiros, o maquinário de beneficiamento do café.

Na fazenda, podemos perceber as desigualdades se desenhando no espaço e na experiência de um cotidiano desumanizante. Na ocupação por moradia, pudemos ver o mesmo fenômeno: desigualdades que se perpetuam no espaço e no cotidiano, num processo cuja desumanização se dá pela “ordem objetiva das coisas”: renda, emprego, moradia.

O próprio processo de organizar a visita permite um vislumbre indireto acerca das formas de violência na sociedade brasileira. Meses atrás visitamos uma ocupação (a Nove de Julho, no centro da cidade) e organizamos um encontro com sua liderança, Preta Ferreira. Neste meio tempo, Preta e líderes de outras três ocupações foram presas, com acusações de ordem genérica; Preta já havia sido inclusive inocentada do mesmo crime, em processo anterior, e segue encarcerada até hoje.

 

Percebemos grande dificuldade em contatar movimentos do centro da cidade, e conseguimos, por fim, a possibilidade de visitar a ocupação Nova Palestina. Por se tratar de uma ocupação de terreno na periferia, e por ter uma situação relativamente pacificada com o poder público e o dono do terreno, a Nova Palestina tem maior estabilidade jurídica. Situada no Jardim Ângela, é a maior ocupação do país: são oito mil pessoas cadastradas e que mantém há oito anos o movimento.

Num sábado ensolarado, visitamos a ocupação com um grupo de alunas e alunos da 2ª série do Ensino Médio do Colégio Santa Maria. Jussara, a liderança da ocupação, uma mulher negra, de discurso firme e sereno, recebeu o grupo com profunda generosidade, assim como os moradores e ativistas que estavam presentes. Ela contou todo o histórico da ocupação, em diálogo com o crescimento da cidade que expulsa seus moradores mais pobres progressivamente para as periferias. Contou sobre a rotina das pessoas que participam do movimento, suas dificuldades com o custo de habitação; seus tempos de deslocamento para o trabalho e para chegarem aos serviços de saúde e educação. Contou sobre como a moradia é condição para o acesso a vários outros direitos, e mesmo à possibilidade de ser empregado. Vimos ainda suas crianças brincando, encontrando no terreiro da ocupação um espaço de lazer que lhes é negado na cidade. Conversamos com moradores, perguntamos, tomamos café juntos.

Nós, professores que acompanhamos a visita, esperamos que tenha havido uma série de deslocamentos nessa experiência. O deslocamento espacial, de um espaço de classe média como é o Jardim Taquaral onde fica o Colégio, para o periférico Jardim Ângela, deve potencializar um outro: o de deslocar o olhar para pensar a realidade da cidade de São Paulo com suas dinâmicas vigentes de exclusão. E permitir pensar quem são os excluídos e excluídas neste processo; seu gênero, sua raça, seus sobrenomes não são tão distintos daqueles dos tempos de pujança econômica da Fazenda Ibicaba.

 

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