Da sala de aula à cena teatral

Da sala de aula à cena teatral

Colégio Santa Maria

15 Julho 2016 | 07h30

A experiência de jovens estudantes como espectadores de teatro

“Não quero a faca nem o queijo. Quero a fome.”

                                                                   Adélia Prado

 Leitura e Crítica da Obra Teatral faz parte dos cursos de Currículo Diversificado do Ensino Médio no Colégio Santa Maria. Ele surgiu do desejo de ampliar a referência teatral dos alunos e promover espaços prazerosos de encontro com o teatro fora da escola.

O curso que dura um semestre e é dividido em três eixos que acontecem simultaneamente: 1o eixo Saídas ao teatro e relato das experiências (fazemos uma saída por mês); 2o eixo – Trabalho com as Companhias Teatrais Paulistanas, 3o eixo – Leituras e Reflexões. O trabalho na disciplina vai se construindo em virtude das peças escolhidas e do perfil da turma, fazendo com que o curso seja estruturado à medida em que vai acontecendo. A interseção dessas três frentes  de trabalho, que abarcam o ver, o escrever, o experimentar, o ouvir e o fazer, permite que seja criado em sala de aula um espaço para que o estudante possa refletir e expandir sua realidade à medida que exige uma presença ativa  na construção de um saber que perpassa pela maneira como ele lê o mundo e se relaciona com ele.

As aulas exercitam profundamente a criatividade, pois como nos diz o diretor inglês Peter Brook, “A imaginação é um músculo e ela fica muito contente em jogar o jogo”, e é com esse exercício da imaginação (em jogos dramáticos, escritas, leituras de dramaturgias, trabalhos plásticos, entre outros) que permitimos consolidar espectadores de teatro e de arte mais interessantes e curiosos. Para eles uma peça teatral torna-se não só uma história a ser ouvida, mas uma gama de símbolos a ser descoberta, gerando sensações e provocando reflexões.

“O mais bacana são as saídas ao teatro e como tornamos o que vimos pontos de referência. Poder fazer comparações entre as montagens aumenta nosso olhar apreciativo.” Bernando Barcellos (aluno)

Buscar sentido e criar relações com o que se vê sem a preocupação de ter uma única resposta certa é o desafio que se apresenta na disciplina. Pensar na experiência do espectador como uma experiência criativa e como possibilidade de contato com o desconhecido torna-se uma oportunidade de escutar o outro e a si mesmo. A relação entre professor e aluno e espectador e artistas é bastante horizontal, visto que o foco é a troca que acontece nesse encontro onde todos tem o que dar e receber.

“Acho que o mais bacana foi olhar o teatro e entender os processos e “o outro lado” [das companhias], foi essencial pra mim.” Clara Cavalcante (aluna)

A intenção não é ensinar aos alunos a escreverem críticas jornalísticas sobre peças teatrais e sim, apresentar a linguagem cênica para que ao descobrir sua complexidade eles possam, no ato de ver, escrever e discutir, ampliar olhares e criar relações consigo e com o outro.  O objetivo final do curso é que os alunos possam usar a escrita como possibilidade de mostrar sua interpretação do mundo partindo de pilares concretos da linguagem teatral para ter condições, não de avaliar se determinada peça é boa ou ruim, mas  se ela, contada de determinado jeito, provoca pensamentos e/ou sensações nele, sujeito. Criar (imaginar) exige trabalho, esforço e inspiração. O que escolhemos olhar? Como aquilo que olhamos interfere no que somos?  Como o que somos interfere no que escolhemos olhar? Merleau Ponty diz que cada um ao olhar as coisas ao redor pode também olhar-se e reconhecer naquilo que vê o outro lado de sua potência.

“Não sei com certeza absoluta o que busco quando vou ao teatro, mas acredito que envolva sair de lá diferente através de um elemento criar correspondência, identificação (…) e levar isso de uma forma ou outra para minha vida.” Olívia Levy (aluna)

Despertar a autonomia do olhar me parece algo importante num tempo como hoje. A importância de  fazer da ida ao teatro uma experiência prazerosa e relevante se dá como possibilidade de alargamento de referências, sensações e olhares de mundo. Ao mesmo tempo, sistematizar essas saídas, pensar como podemos falar sobre uma experiência vivida, como descrever o que sentimos e vemos, dá ferramentas para comunicação com o outro. Saber nomear o que nos toca e o que nos afasta. Chegar perto, falar, olhar, perguntar para artistas criadores o porquê das suas escolhas, se apropriar da nomenclatura correta para se fazer entender e para compreender a fala do outro, podem ser instrumentos significativos para formar identidades com mais repertório estético e crítico.

Colocar alguém que está formando sua identidade, seu olhar sobre o mundo em contato direto (por meio das peças e também de encontros pessoais) com artistas de teatro que pensam seu trabalho como pesquisa (se repensam, retratam a realidade mutante, se propõe olhares sensíveis do outro e de si mesmos) me parece ser  um encontro rico, necessário e sim, muito desafiador e prazeroso.

1507_2016-05-17 09.31.58 1507_sai?da Leitura e cri?tica fevereiro 2016