Da revolução silenciosa da ARTE

COLÉGIO SANTA MARIA

25 de setembro de 2020 | 12h50

Autoria – Rita Pisano

 

“Revolucionário é todo aquele que quer mudar o

 mundo e tem a coragem de começar por si mesmo” – Sérgio Vaz

 

Sou professora no Colégio Santa Maria de três componentes curriculares para o Ensino Médio: Teatro, Cine Clube.arte e Criação Artística. Como professora dessa grande e rica área de conhecimento que é a arte, sempre me senti parceira  dos meus alunos nas trajetórias e investigações que trilhamos, pois acredito que a arte é um território de descoberta sempre, para todos os envolvidos.

 

Nesse sentido, como professora, procuro apresentar temas e caminhos nos meus cursos, que possam provocar os estudantes a relacionar outros conhecimentos, “pensar fora da caixinha” e, principalmente, encontrar uma forma de expressão pessoal e autônoma. Nesse percurso, também me deparo com minhas próprias transformações e dúvidas de “professora artista” e cada vez mais me percebo aprendendo com os cursos, os alunos e suas entregas.

 

Comecei este texto apresentando esse lugar que habito como professora de Artes (no sentido mais amplo da palavra), pois acredito que o espaço da Arte na escola deve ser menos escolarizado e conteudista e precisa, urgentemente, caminhar para ser um espaço aberto de criação, discussão, sensibilidade e troca para aquilo que está ao nosso redor, no mundo e na gente mesmo.

 

Não é inédito que o mundo se depara com uma situação extrema de restrição, afinal, já passamos por guerras e pandemias anteriores, mas para muitos de nós essa experiência está acontecendo pela primeira vez. Sendo assim, neste ano atípico, em que vivemos um isolamento social por conta de uma pandemia e nos deflagramos com as enormes diferenças sociais e econômicas do nosso país e mergulhamos dentro das nossas casas e das nossas relações íntimas e precisamos lidar com ansiedades e preocupações novas, a Arte na escola e fora dela, mais uma vez, se torna um instrumento poderoso de contato consigo e com o outro, além de uma forma de traduzir o que vemos, sentimos e pensamos para além de um conteúdo ou forma específica, e mais uma vez procura e encontra formas de sobreviver e de se reinventar.

 

Gosto de pensar na Arte como uma possibilidade de “acordamento”, de saída da inércia cotidiana que nos habituamos, pensá-la como aresta, respiro, meio de transformação. Assim, nessa migração dos cursos, que até então eram bastante livres nos espaços que ocupávamos na escola, nas relações estabelecidas entre os corpos dos alunos, nas discussões e propostas de atividades, estar no modelo remoto, cada um na sua casa, sem espaços comuns, nem corpos em contato, tivemos que juntos encontrar novas maneiras de criar e trocar. Esse desafio foi constante para muitos artistas também, professores ou não, e nesse tempo houve um canal muito grande entre os artistas e professores, de troca de ideias, ajudas e descobertas.

 

Olhando as transformações dos meus cursos neste ano e a minha própria como “professora artista”,  percebo que, quando a escola ocupa um lugar de parceria, interlocução e provocação, há um crescimento tanto para o estudante quanto para o professor, pois o mundo e o que nos circunda vira algo vivo a ser observado e vivido e não apenas algo a ser contado de longe. A vida acontece o tempo todo, inclusive enquanto nos preparamos para ela… E o material do qual o fazer artístico se ocupa é a vida e suas complexidades.

 

Estar em casa, nessa situação super privilegiada que temos alguns de nós, num momento terrível de desigualdade, insegurança e violência, confirmei que, mesmo distantes fisicamente, mesmo com as perdas de conteúdos, materiais e espaços, o fazer artístico na escola é de grande importância, pois permite que cada um possa elaborar para si, num gesto, numa composição plástica, numa escrita, música ou cena, a tradução daquilo que vê, vive e sente e também propor mudanças na realidade interferindo no que existe com alternativas para esse  mundo confuso que vivemos. Propiciar essas reflexões e interlocuções com os adolescentes nos ajuda a tirar essa realidade remota de um lugar suspenso e a “concretizar” nossas imaginações e fazeres.

 

Nesse período, concretizamos nossas ebulições em forma de rádios novelas, curtas metragens à distância, recebemos convidados, fizemos interferências nas redes sociais, desenhamos, fotografamos, conhecemos aplicativos novos, criamos personagens e poesias e assim passamos esse tempo conhecendo melhor nossos caminhos pessoais, descobrindo como nosso imaginário social vem sendo construído e tentando encontrar veredas para sonhar e transformar a gente mesmo e o nosso redor.

 

Posso dizer que sou alguém hoje bem diferente de quem começou este ano de 2020, mas continuo acreditando que a imaginação e a troca são fundamentais para as revoluções internas e externas.

 

 

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