Compreender a dinâmica social através da paisagem

COLÉGIO SANTA MARIA

09 de abril de 2021 | 07h00

Autoria – Fernando Uesato de Mello

A paisagem é uma das categorias espaciais mais utilizadas nas ciências humanas. Isto porque é através dela que percebemos o mundo à nossa volta e começamos a entender as dinâmicas em que estamos inseridos. É através desta categoria baseada na experiência sensitiva que compomos uma grande parte do nosso ser, nos colocamos no espaço e agimos nele.

Contudo, a paisagem carrega em sua construção muitas camadas que por diversas vezes fogem do olhar e se escondem na história. A concretude do espaço é visível, mas seu processo de formação não é. E justamente por isso, do ponto de vista individual, é fácil e comum não perceber os grandes movimentos que ocorrem em nossa sociedade. Aliás, esta é uma das grandes contradições que existem na modernidade: a sociedade é um grande corpo formado por perspectivas individuais que muitas vezes se orientam por caminhos diferentes.

Sendo assim, os mesmos processos, os mesmos acontecimentos são mediados por instâncias e trilhas não compartilhadas por todos. Desta maneira, o mesmo episódio é interpretado como se nele houvesse dois mundos (ou mais), levando esta mesma sociedade a se comportar de forma conflituosa. É importante termos isto em mente quando abordamos as questões sociais – principalmente as mais polarizadas-, pois este conflito nos revela a “verdade” do processo social.

É através desta perspectiva que trabalhamos no curso de Metrópole em Movimento na 2ª série do Ensino Médio do Santa Maria. No curso abordamos a expansão espacial do processo de modernização como uma contradição em processo, que se materializa de uma forma “subjetivamente” diversa, mas que carrega em si uma “verdade” processual. Entretanto, para que a “face” oculta da dinâmica social venha à tona, é necessário um distanciamento do objeto, possibilitado pelas teorias sociais elaboradas ao longo da história.

Um exemplo atual do que foi descrito acima é a própria percepção do que é a pandemia do Coronavírus. É notável que as pessoas se comportam de maneira muito diversa em relação a esta catástrofe. A questão que fica para as ciências humanas é a reflexão junto aos alunos dos motivos, dos contextos, das mediações e dos interesses que levam a comportamentos tão antagônicos, mesmo com um número tão grande de vidas destroçadas a cada dia.

Neste caso fica claro que uma das causas é o fato da sociedade brasileira ser tão desigual, tão fragmentada, na qual alguns madrugam para pegar uma condução lotada rumo ao trabalho (uma condução que muitas vezes, dia a dia, desumaniza quem as utiliza), outros podem trabalhar de casa e alguns ainda podem se dar ao luxo de voar de helicóptero ou avião, o que os coloca em outro patamar de experiência cotidiana (lembrando inclusive que no Brasil não há cobrança de IPVA sobre aeronaves e embarcações como helicópteros, aviões, lanchas e iates).

Trabalhando desta forma, buscamos fomentar nas estudantes e nos estudantes um espírito crítico, voltado ao bem comum, e não à perspectiva individual.

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