Como o desenvolvimento saudável dos sentidos, na infância, reflete na aprendizagem durante a adolescência

Colégio Santa Maria

02 Dezembro 2016 | 07h34

Autoria: Sandra Moreira de Macedo, professora de Literatura do Ensino Médio do Colégio Santa Maria

 

Certas questões deveriam estar presentes no cotidiano do ambiente familiar e escolar da criança:

1-   Qual a diferença entre escrever à mão e escrever por meio de um teclado?

2-   Qual a diferença entre desenhar com giz de cera e desenhar em um tablet?

3-   Qual a diferença entre ouvir alguém presente cantando e ouvir um rádio?

Se pensarmos somente nestas questões, já teríamos o bastante para uma boa reflexão: a importância dos estímulos dos sentidos na primeira infância (até 7 anos), no processo de aprendizagem:

Na primeira questão, o estímulo da escrita à mão traz para a criança o sentido do movimento. Ela observa algo externo e com os olhos em movimento “tateia” a forma das letras, para depois, em seu caderno, por em processo de imitação o movimento das mãos. Nesse caso, o sentido estimulado é voltado para o seu próprio corpo.

Na segunda questão, além da imitação do movimento e da percepção das formas das letras, há a cor e o cheiro do giz de cera, de preferência o de mel. Que cheiro delicioso! Aqui o olfato da criança é estimulado e com ele as lembranças afetivas da infância ficarão gravadas para o resto de sua vida. O escritor francês, Marcel Proust, fala sobre a importância do olfato na memória afetiva do homem em “O Tempo Perdido”. Em um outro best-seller, “O Perfume”, Patrick Süskind também destacou o mesmo sentido.  Há também as cores do giz que são apreendidas pelos olhos e observadas na natureza. Aqui, o sentido estimulado é voltado à natureza circundante (cheiros, cores e formas).

Na terceira questão, a audição pode tanto captar sons emitidos por um rádio como sons emitidos ao vivo. Quando se escuta um rádio, porém, muito se perde da interpretação do músico, seus movimentos e sentimentos perceptíveis através da visão.  Além dos aspectos artísticos envolvidos, é claro, há os aspectos que transcendem o ser humano e o uso da razão, que o sensibilizam para o convívio com o outro ser humano. Essa sensibilização para o outro, nos dias atuais, tem sido muito necessária nos conflitos de ordem político-social. Nesse caso, o sentido estimulado é voltado para outro ser humano.

Como os sentidos destacados se refletem na aprendizagem durante a adolescência?

Muito tem se falado do ENEM e a “verificação” do domínio das competências dos estudantes. Essas competências dialogam profundamente com as questões acima. Usando, às vezes, um vocabulário distinto, mas tendo em foco o mesmo objetivo.

É possível perceber tal relação logo na primeira questão, na qual o sentido estimulado é voltado para o próprio corpo da criança. No caso, o exemplo dado foi de coordenação motora fina, a escrita. Há uma competência do ENEM que dialoga diretamente com essas questões do corpo; a competência linguagens, códigos e suas tecnologias:

Competência de área 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a integração social, a formação da identidade e a própria vida. Esse processo de compreender e usar a linguagem corporal só será desenvolvida por meio dos estímulos ao sentido do movimento durante a infância. Só assim será possível usar a linguagem corporal para a integração social, a formação da identidade e a própria vida.

Na segunda questão, em que o sentido estimulado é voltado à natureza circundante (cheiros, cores e formas) encontramos um diálogo com competência das ciências da natureza:

Competência de área 3 – Associar intervenções que resultam em degradação ou conservação ambiental a processos produtivos e sociais e a instrumentos ou ações científico-tecnológicos. Sem a vivência da observação da natureza (com estímulos de cores, cheiros, etc.), dificilmente o adolescente criará um vínculo com a natureza que o circunda. Pode até ocorrer de se ligar intelectualmente ao assunto, mas, com certeza, uma vivência na infância o fará ser mais participativo na conservação do meio ambiente.

A última questão em que o sentido estimulado é voltado para outro ser humano faz uma ponte com a competência da área de códigos e linguagem:

Competência de área 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. O estímulo da escuta da música ao vivo faz com que o aluno se sensibilize e, mais tarde, essa sensibilização será a mola propulsora para a compreensão da arte como saber cultural e estético, com a função de integrar a organização do mundo.

É claro que há várias outras questões a serem levantadas, mas esses exemplos já trazem à tona o quão relevante é estimular a criança a um desenvolvimento saudável dos sentidos e como isso a tornará mais apta na adolescência­­­­ a responder, sem dificuldade e sofrimento, não somente às questões trazidas pelo ENEM no âmbito escolar, mas também a questões da vida social, afetiva, política, ambiental que a circundam. Estas, sim, muito mais importantes de serem desenvolvidas na criança.

*As questões sobre os sentidos foram retiradas de um colóquio com o professor Marcelo Petaglia. Fica o meu agradecimento pela fonte de inspiração pedagógica.