Capoeira: a arte da ginga, da fé e da mandinga

Capoeira: a arte da ginga, da fé e da mandinga

COLÉGIO SANTA MARIA

26 de outubro de 2020 | 07h30

Autoria – Cleber Theodoro, Pedro Moisés e Lucas Marchezin

Berimbau tá chamando
É a roda formando
Vai se benzendo pra entrá
O toque de Angola, São Bento Pequeno
Cavalaria e Iuná!
A mandinga do jogo, o molejo da esquiva
É pra não cochila!

(Mestre Suassuna)

Jogo, dança ou luta? A capoeira, enquanto manifestação da cultura afro-brasileira, formada no contexto da diáspora africana, pode ser considerada como a arte do engano, do ser ou não ser. Ela é, portanto, um jogo, na medida em que exige de quem a pratica uma série de estratégias para vencer – na roda – um oponente, mas é também uma dança, que carrega na plasticidade dos movimentos toda uma estética que remete a uma história afro-brasileira e, ao mesmo tempo, uma luta, pois seus movimentos são um contínuo de ataques e defesas, criados no decorrer do tempo para resistir, primeiro ao violento processo de escravização e, depois, a condição de marginalidade e opressão na qual se encontrava a população negra e pobre após a abolição.

Para tentar dar conta da complexidade de elementos que formam a capoeira, hoje considerada um patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO[1], os componentes de Educação Física, História e Ensino Religioso do 7º ano do Santa Maria se reuniram para pensar um projeto integrado. A ideia central foi partir da prática da capoeira, um saber/fazer construído a partir da movimentação do corpo, e, por meio dele, explorar os elementos ligados à história da capoeira, aos elementos estéticos a ela vinculados, e o universo da fé e da religiosidade contidas no ritual da roda de capoeira.

Assim, no decorrer de toda uma sequência didática desenvolvida nas aulas de Educação Física, em meio ao processo de aprendizado e experimentação dos movimentos da capoeira, buscou-se trabalhar o contexto histórico de formação da capoeira e pensar de que maneira a ginga, base para a construção de todos os demais movimentos da capoeira, se relaciona a esse contexto. Da mesma forma, procurou-se analisar como a música, os diversos toques de capoeira e os instrumentos a ela ligados remetem a tradições de origem africana aqui ressignificadas e transformadas no jogo da capoeira de Angola, no jogo da capoeira Regional.

Por fim, buscou-se pensar como a religiosidade que veio clandestinamente nos porões dos navios negreiros se faz presente no jogo da capoeira através de uma série de rituais. Uma fé cantada e jogada que, ao longo dos séculos, dita o ritmo dos passos e demais movimentos dos capoeiristas e expressa, em sua ginga[2] e mandinga[3],  toda uma série de lutas, preces e súplicas em prol do direito de resistir a opressão e existir de maneira digna.

Ao fim e ao cabo, o fato de ainda estarmos em um contexto de isolamento social e dentro da modalidade de ensino remoto não impediu que pudéssemos realizar – alunos e professores – aquilo que a roda de capoeira tem de mais essencial: a troca de saberes, histórias e experiências.

 

[2] A roda de capoeira foi reconhecida como patrimônio imaterial da humanidade, em 2014, na 9º sessão do Comitê Intergovernamental para Salvaguarda do Patrimônio Imaterial.

[2] “Na capoeira, movimento do capoeirista que busca enganar ou iludir seu oponente, desnorteando-o por meio de golpes, para se defender ou atacar. Ação ou efeito de gingar, de balançar o corpo de uma determinada forma, com destreza, malícia, desenvoltura; requebro, meneio, gingado: a ginga dos passistas conquistaram o povo” – https://www.dicio.com.br/ginga-2/

[3] “O termo mandinga pode designar a malícia do capoeirista durante o jogo, fazendo fintas, fingindo golpes e iludindo o adversário. Mas pode referir-se também a uma certa dimensão sagrada, um vínculo que muitos praticantes de capoeira possuem com os preceitos de algumas religiões afro-brasileiras” – https://portalcapoeira.com/capoeira/cronicas-da-capoeiragem/religiosidade-na-capoeira/

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