Biologia com e para cidadania

COLÉGIO SANTA MARIA

01 de março de 2019 | 07h30

Autoria: Adriana de Oliveira Pires

 

Dois mil e dezenove começou com um rico acervo para discutir Biologia, infelizmente. Com todo respeito ao sofrimento humano provocado pelo “acidente” de Brumadinho, iniciar o curso de Biologia da 2ª série do Ensino Médio do Santa Maria, transformando essa tragédia em um estudo de caso, pareceu ser uma oportunidade ímpar para retomar a importância do desenvolvimento sustentável.

 

O assunto rapidamente mobilizou os alunos para discussões significativas que exigiram a aplicação de conteúdos específicos de ecologia, impacto ambiental e sustentabilidade (desenvolvidos ao longo da 1ª série) integrados a aspectos da geografia física para analisar o evento, suas causas e consequências. Além disso, os alunos foram orientados a fazer a análise crítica de diferentes discursos divulgados na mídia televisiva a respeito do caso, tal como as entrevistas dadas por Fábio Schvartsman, presidente da Vale. A compreensão das causas e consequências, na sua totalidade, e a análise de diferentes discursos culminaram, quase naturalmente, ainda que fosse a intenção inicial, na reflexão e no apontamento, por parte dos alunos, de aspectos que implicam e são implicados pela cidadania.

 

O caso de Brumadinho não pôde ser analisado e discutido desconectado do ocorrido em Mariana, em 2015, pois os dois são parte do mesmo problema: o que tem sido ignorado sobre desenvolvimento sustentável e o desprezo pelas gerações futuras. Há muito o que questionar sobre esses eventos: O que não foi aprendido após Mariana? Há tecnologias para reduzir as chances de tais “acidentes”? Se sim, por que elas não são utilizadas? Qual a intenção em denominar o rompimento das barragens de rejeitos de acidentes? São acidentes ou crimes ambientais? Qual a responsabilidade do Estado, das empresas envolvidas e das mídias que divulgam as informações? Como avaliar falas como a de Fábio Schvartsman – “O dano do ponto de vista ambiental é muito menor [que Mariana]. Mas a tragédia humana deve ser maior”? Deve-se medir a tragédia humana apenas no tempo presente? As doenças que surgem e/ou se alastram como consequência desse tipo de crime não devem ser computadas na caracterização da tragédia humana e na punição dos responsáveis?

 

Os exemplos de perguntas, acima, surgiram em sala de aula quando os alunos foram incentivados a analisar as duas situações e, muitas vezes, colegas apresentaram diferentes respostas fundamentadas em pesquisas feitas em momentos anteriores. Claramente, a condução desse estudo de caso permitiu, além do uso das habilidades já citadas, o exercício da crítica fundamentada em saberes produzidos pela Ciência.

 

O conhecimento científico biológico é condição para a compreensão e crítica de vários casos e contextos, até mesmo, para a identificação de cenários forjados. E sem esse discernimento não é possível uma atuação cidadã plena. É necessário conhecer para escolher, para atuar com responsabilidade e para propor intervenções.

 

Da atual geração de adolescentes surgirão líderes de famílias, de empresas, de comunidades. Surgirão representantes de diversos grupos. É indispensável que eles se tornem competentes para interpretar o mundo, identificar e desmontar falácias e para pensar alternativas de desenvolvimento que respeitem o meio ambiente e as gerações futuras.

 

É urgente ensinar Biologia. É urgente aprender Biologia.