ARQUITETURAS DA DESIGUALDADE

ARQUITETURAS DA DESIGUALDADE

Colégio Santa Maria

09 Novembro 2018 | 07h30

 

O Estudo do meio da 2ª série do Ensino Médio do Santa Maria intitula-se: “Arquiteturas da desigualdade”. Sua proposta consiste na visita à Fazenda Ibicaba, em Cordeirópolis – SP. Fundada pelo Senador Vergueiro em 1817, a propriedade foi pioneira na substituição da mão de obra escrava pela de imigrantes europeus. Esse espaço testemunhou uma mutação que julgamos crucial para investigação das relações entre as classes sociais no Brasil contemporâneo.

Exploramos a correspondência entre oikós (a casa, a família, a habitação) e ethos (as formas de habitar, o costume da casa, a ética que conduz os agentes socializados no interior da família). Considerando a bibliografia trabalhada nos cursos de Geografia, História e Sociologia, exploramos três espaços principais: a Casa Grande, a Senzala e a Vila dos Colonos, espaços paradigmáticos para pensar, respectivamente, a formação das elites brasileiras, das classes populares e das classes médias.

Esse estudo justifica-se diante do fato de que a extensão da desigualdade brasileira é um dos aspectos definidores da fragilidade de nossa democracia, em especial, se consideramos que essa última não é apenas uma via institucional para a disputa do poder do Estado, mas define-se como uma forma determinada da vida social.

As revoluções burguesas, tema central para os cursos de História e Sociologia da 2ª série, colocaram os ideais fundamentais da liberdade (do indivíduo), da igualdade (perante à lei) e da fraternidade (entre os cidadãos) como bússola moral das sociedades modernas. Desde então, a democracia consiste na construção coletiva de nossa vida comum, orientada para a instauração de um mundo verdadeiramente humano, contra o bestial domínio do mais forte. Ela mede-se por sua capacidade de afirmar valores e positivar direitos; corroendo-se quando as proteções e as possibilidades da cidadania convertem-se em bem de consumo, privilégio de uma restrita parcela da população.

Avaliar a qualidade de nossa democracia envolve examinar os liames de solidariedade que unem os sujeitos entre si. Dada à formação da sociedade brasileira e as suas feições na atualidade, é possível dizer que os desafios que se impõem para a geração de jovens que estamos formando são enormes. Afinal, nossa sociedade é oriunda da escravidão, instituição que oficializou a indigência da classe trabalhadora pela maior parte de nossa história. Sua herança viva se faz sentir na condição de subcidadania a que estão submetidos enormes contingentes humanos.

Não pensemos apenas na escabrosa miséria que assola o país, mas consideremos também o fato de que parte significativa daqueles que estão oficialmente incluídos vivem em relativa precariedade, principalmente, tendo como referência a experiência (hoje em crise) dos países desenvolvidos.

Segundo o Censo de 2010, cerca de 80% das famílias brasileiras vivem com até dois salários mínimos per capita. Em valores atuais, isso significaria que, na melhor das hipóteses, 8 em cada 10 brasileiros dispõe, no máximo, de US$ 17,12 por dia para suprimir o conjunto de suas necessidades materiais e simbólicas. O valor equivale a pouco mais de duas horas de trabalho remuneradas segundo a legislação que normatiza o salário mínimo estadunidense. Os dados da PNAD 2016/2017 revelam que quase 50% dos trabalhadores no Brasil recebe rendimentos inferiores ao salário mínimo, o qual é claramente insuficiente para cobrir as finalidades constitucionais. As estimativas da organização não-governamental Oxfam Brasil dão conta de que apenas os seis brasileiros mais ricos possuem o mesmo patrimônio da metade mais pobre dos brasileiros, enquanto que os 5% mais ricos possuem patrimônio equivalente aos demais 95%.

A desigualdade de rendimentos ilustradas por esses dados, no entanto, é apenas um aspecto da questão, aquele mais facilmente expresso em termos quantitativos, mas que não deve obnubilar a compreensão de que os mais pobres estão apartados, em primeiro lugar, dos direitos fundamentais da cidadania. Tomemos apenas um exemplo, entre muitos possíveis: a educação. A anomia que se abate sobre as famílias dos setores mais empobrecidos da população, não raro, é responsável pela categorização desses sujeitos como ineducáveis. A escola pública, ao invés de adaptar-se às necessidades de aprendizagem da população, passa a desempenhar um papel na exclusão para além da renda. Naturaliza-se, assim, a divisão entre os civilizados e os bárbaros, os que prestam e os que não prestam, os que devem ser protegidos e aqueles que são os indesejáveis. Trata-se de uma operação que segue pari passu o esquema de estratificação típico da sociedade escravocrata, com a sutil mudança de que o elemento racial deixa de ser explícito, mas torna-se implícito, mesmo que ainda seja fortemente influente.

Racismo e colonialismo são conceitos fundamentais para a inteligibilidade tanto do sentido histórico da Ibicaba e da própria modernização conservadora da sociedade brasileira. Vivemos num país que, a despeito de sua independência em 1822, tem dificuldade para constituir propriamente um projeto nacional que implique um pacto social durável que permita as reformas democratizantes que sejam capazes de garantir o desenvolvimento e traga benefícios para todos. Nesse ponto, nosso estudo do meio aborda dois paralelismos importantes: aquele entre África e Brasil, no âmbito geopolítico; e, entre as imigrações europeias do século XIX e XX e as imigrações contemporâneas, em especial, de africanos e latino-americanos, no âmbito das rupturas e permanências históricas. Isso se faz pela visita de dois convidados imigrantes africanos que participam de uma roda de conversa avaliando junto aos (às) nossos (as) alunos (as) nossa experiência em Ibicaba.

O Colégio Santa Maria, comprometido com o valor cristão da dignidade da pessoa humana, busca formar alunos (as) críticos (as) em suas análises e comprometido com o desenvolvimento social. Essas intencionalidades marcam o nosso trabalho no estudo do meio, que nossos (as) alunos (as) são convidados (as) a completar através de uma investigação teórica e estética das relações sociais abordadas, elaborando de um livro de fotografias que busque transcender a realidade da fazenda.  Convidamos nossos (as) os (as) estudantes para se debruçarem sobre as desigualdades que os (as) circundam.