América Latina e Sul Global: novas abordagens pedagógicas

América Latina e Sul Global: novas abordagens pedagógicas

COLÉGIO SANTA MARIA

24 de agosto de 2021 | 07h00

Autoria: Adriano Skoda

A queda do muro de Berlim apontou o fim da Guerra Fria e marcou simbolicamente o início da globalização. Era o “fim” dos muros e fronteiras, o início de uma época “sem” disputas ideológicas e o fim da ordem bipolar. As novas tecnologias anunciavam que o futuro seria significativamente distinto dos 50 anos anteriores, a vida seria marcada pela conexão, pelas possibilidades de circulação e pelo encontro dos diferentes povos e culturas. Ao menos essa era a promessa. Nesse novo contexto, as definições geopolíticas de primeiro, segundo e terceiro mundo não cabiam mais, era necessário reinterpretar as relações políticas internacionais à luz da nova realidade.

Compreender o papel da América Latina nessa nova divisão política do mundo é um dos desafios que o curso de Geopolíticas da América Latina do itinerário de Ciências Humanas do Ensino Médio do Colégio Santa Maria se propõe a realizar. Como analisar a nova divisão política do mundo entre países desenvolvidos (Norte Global) e em desenvolvimento (Sul Global)? Como interpretar os eventos em curso na Ásia e África e relacionar suas causas e consequências com a realidade latino-americana? Como reconhecer as histórias dos povos para além das histórias dos Estados-Nações?

O nosso ponto de partida no segundo bimestre de 2021 foi a notícia das sanções sanitárias de Israel à Palestina, impedindo o acesso dos agentes de saúde locais às vacinas contra a covid. Logo em seguida, a eclosão de um novo conflito na região levantou o debate em sala de aula:   como era possível relacionar a experiência latino-americana a esses eventos em curso no Oriente Médio?

Iniciamos analisando o mapa da divisão Norte-Sul e suas contradições. Dos territórios da América Latina, somente a Guiana Francesa, ainda hoje território ultramarino da França, é definido como desenvolvido. Da mesma forma, no Oriente Médio, somente Turquia e Israel pertencem ao Norte Global. Esta divisão revela, mais do que a capacidade industrial dos países desenvolvidos, a permanência da lógica colonial, em que os territórios em desenvolvimento são aqueles marcados pelas três etapas do colonialismo: 1500 por Portugal e Espanha nas Américas; Conferência de Berlim (1885), domínio europeu sobre o território africano; Tratado de Sèvre (1920), criação dos protetorados europeus no Oriente Médio. Foi a partir deste recorte que pudemos fazer uma ponte conectando realidades aparentemente tão distintas como a latino-americana e a palestina.

O passo seguinte foi buscar um caminho de diálogo entre culturas tão diferentes. Foi então que a música e especialmente o videoclipe, linguagem marcante da indústria cultural a partir dos anos 1980, apareceu como suporte didático. Por meio do videoclipe “Somos Sur”, da cantora franco-chilena Ana Tijoux com participação de Shadia Mansour, rapper anglo-palestina, conectamos paisagens, sons e vestimentas e pudemos conversar sobre como duas mulheres, nascidas em território europeu mas fortemente vinculadas à história dos territórios originários de suas famílias, uniram suas vozes para contar por meio do rap a história de povos que mesmo oprimidos não se calam.

Assim estão sendo construídos os cursos do itinerário de Ciências Humanas no novo Ensino Médio do Santa Maria: com escuta ativa, valorização da voz e história dos povos subalternizados e a compreensão das múltiplas camadas políticas presentes em cada fenômeno social.

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