Alunos da EJA provam que nunca é tarde para recomeçar

COLÉGIO SANTA MARIA

26 de março de 2019 | 07h30

Autoria: Rafael Lima

Não imaginava receber aquele convite que me tornaria o mais novo professor de jovens e adultos do Colégio Santa Maria. Meses antes, encontrara-me com a diretora da EJA, apresentado por um ex-aluno da instituição, para pedir um favor: precisava, urgentemente, de uma sala livre aos sábados, pela manhã, para ministrar um curso de Português a alunos da universidade em que lecionei por muitos anos. Apesar de saber que as salas estavam todas ocupadas, ao final do encontro, a nobre diretora, Maria Cecília, simpatizando com meu perfil, solicitou-me um currículo, para que, surgida uma vaga de professor de Português, entrasse em contato. Três meses depois, efetivávamos a contratação.

Lembro-me perfeitamente dos meus primeiros dias no Colégio. Acostumado a aulas ininterruptas de quase três horas cada uma, teria, agora, de me adaptar a velozes quarenta minutos em sala. A linguagem das aulas teria de ser modificada, tanto quanto sua abordagem. Embora tivesse lecionado para jovens e adultos na universidade, a realidade, aqui, era bastante diferente, pois os objetivos do público, de certo modo, eram também diferentes.

O objetivo de quem está na universidade é buscar a especialização numa determinada área do conhecimento. O aluno sairá dali qualificado para uma profissão específica. Na EJA, o estudante busca, de alguma forma, compensar o tempo perdido, e, a partir dos conhecimentos obtidos, iniciar os estudos universitários ou mesmo técnicos. (Embora alguns procurem somente, e de modo louvável, a conclusão do Ensino Médio).

Atuando na Educação de Jovens e Adultos, notei, logo nos primeiros meses, duas realidades, uma bastante preocupante e outra muito animadora, sobre as quais gostaria de compartilhar com o leitor.

A primeira delas, e que, de fato, assustou-me um pouco, é a do grau de dificuldade que nossos alunos da EJA encontram ao se deparar, por exemplo, com textos simples, os quais terão de compreender e interpretar. Parece, sim, uma tarefa fácil; mas, infelizmente, pude notar a extrema inabilidade dos educandos para responder a perguntas básicas de interpretação. Muitos leem duas, três e até quatro vezes o mesmo trecho, sem conseguir explicar o que o autor quis dizer. Quando recebi as provas, constatei respostas bem distantes do que seria o ideal.

Evidentemente, não se pode considerar deficitário apenas um aspecto da educação como causador de tudo isso, mas, como se sabe, uma cadeia de situações entrelaçadas que geram o estado de coisas da atual educação brasileira. Constatei a mesma realidade com os alunos da universidade.

Todavia, e apesar disso, foi recompensador verificar, dia após dia, em nossos encontros com esses alunos, o desejo de superação, o empenho em dar conta das atividades, provas, simulados, projetos interdisciplinares propostos; depois de um dia inteiro de trabalho árduo, pouco tempo para a família, cansaço e sono, lutando com os minutos para não perder a entrada no colégio; enfrentando todas as adversidades que se apresentam, para vencerem mais essa etapa em suas vidas.

Em algum momento, tiveram que interromper seus estudos, por vontade própria, priorizando outras atividades, ou porque foram obrigados a parar. Cada um tem, neste sentido, uma história para contar; cada vida acomodada naquelas carteiras traz um histórico de alegria e também de muita dor. Mas eles estão ali “firmes e fortes”, como costumam dizer.

Assim, se a vida lhes fechou uma porta, corajosas elas começam a abrir janelas, porque nunca é tarde para um recomeço, e isso nossos alunos da EJA provam diariamente.

Ao compartilhar minha experiência na Educação de Jovens e Adultos, quis apenas demonstrar que, apesar de toda e qualquer dificuldade, sempre podemos mudar o rumo de nossas vidas. Por isso, propositalmente, comecei este texto com um “não”, para que pensássemos na realidade de tantos alunos que receberam também um “não”, devido às diversas circunstâncias da vida. Entretanto, a partir de uma determinada decisão, deram a volta por cima, iniciando um processo de superação.

Concluo, pois, com uma palavra positiva, representando o novo tempo na história dessas pessoas incríveis, que disseram ao mundo e a si mesmas que sempre é possível recomeçar, “sim!”.