A utilização pedagógica do ARG (alternate reality game)

COLÉGIO SANTA MARIA

15 Junho 2018 | 07h30

Autoria: Adriano Silva dos Santos

 Não é novidade que vivemos um momento em que novas habilidades e competências são necessárias em nossa sociedade. Um momento que exige de nós, continuamente, a capacidade de nos adaptarmos a diferentes situações. O mundo digital, por exemplo, é mais que uma realidade: é a realidade essencial de nossos alunos, que já nasceram imersos nesse contexto. Isso traz um grande desafio para a escola. Como ajudar nossos jovens a desenvolver tais habilidades e competências pedidas agora pelo mundo?

Em primeiro lugar, precisamos nos desvencilhar de preconceitos e supostas verdades arraigadas, para realmente adquirirmos um olhar que nos permita entender o papel da educação pós-revolução digital. Em segundo lugar, desenvolver novas estratégias que atinjam os objetivos colocados. Não vou falar aqui do primeiro passo, embora ele mereça, sim, bastante discussão. O objetivo deste texto é falar um pouco sobre o segundo momento, trazendo uma ferramenta com um potencial enorme para nos ajudar na empreitada.

Já faz vários anos que me deparei com o conceito de ARG (alternate reality game). Trata-se de uma espécie de jogo que utiliza tanto o espaço “virtual” da internet quanto nossos espaços ditos reais para desenvolver, por meio de enigmas, uma determinada narrativa. Aqui no Brasil, um dos ARGs com mais êxito foi aquele desenvolvido ao mesmo tempo em várias cidades do mundo para a divulgação do filme O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Um jogo que envolveu, entre várias outras coisas, ligações telefônicas, códigos de cofres na internet, maletas deixadas em shoppings de São Paulo… E terminou com uma multidão de pessoas maquiadas como o personagem Coringa andando pela Avenida Paulista em busca da solução do último enigma.

No meu contato com esse tipo de jogo, fui percebendo que um ARG ajudava a desenvolver várias habilidades que nossa atualidade exige. A capacidade de cooperação talvez esteja no topo daquilo que é necessário para conseguir jogar um ARG. E aí podemos pensar: “mas essa ideia de trabalhar em grupo não é nova.” Só que estamos falando agora de algo bem mais profundo e interessante do que isso. Em um ARG, todos realmente têm de se completar a fim de prosseguir no jogo. Existe a percepção clara de que é necessário levar em conta tudo o que todos ali têm a oferecer. E aí chegamos a um conceito bastante estudado nos dias atuais: o da aprendizagem colaborativa. Aprendermos uns com os outros, pois todos, absolutamente todos, têm algo importante a oferecer.

Outra habilidade essencial é a capacidade de selecionar informações na internet. Já virou chavão dizer que vivemos a era do excesso de informação. Todos sabemos disso. Mas apenas saber não é suficiente. O que fazemos em relação a isso? Nossos jovens têm de conseguir se movimentar por esse universo deslumbrante que tem tanto potencial para nós, sem serem absorvidos e se perderem na montanha de informações da internet. Em qualquer ARG, essa habilidade é desenvolvida e testada de maneira contínua.

Além disso, por se tratar de um jogo baseado em enigmas, fica óbvio que para atravessá-lo o participante deverá mobilizar vários conhecimentos vindos de muitas áreas diferentes. Desse modo, torna-se possível, também, trabalhar conceitos de Ciências Humanas, Linguagens e Códigos, Ciências da Natureza e Matemática. Ou seja, não é nada difícil criar uma aproximação produtiva com o que está sendo ensinado em sala de aula.

E tudo isso agregado a uma história, uma narrativa na qual todos os participantes têm um papel. E aí chegamos a um nível bastante profundo em se tratando de formação de pessoas. Nós, seres humanos, somos movidos a histórias. Precisamos delas. Elas nos formam. A pessoa que somos hoje tem muito a ver com as histórias que vimos no decorrer de nossa vida. Sobre algumas, temos muita consciência do quanto nos afetaram; sobre outras, a influência se deu no nível do inconsciente e, portanto, mais profundo ainda. Participar de uma narrativa fictícia tem o poder de trabalhar com aspectos simbólicos importantes. Até sabemos conscientemente que não somos, realmente, a cientista que faz parte da equipe que deve salvar o planeta. Mas estar nesse papel dentro de um ARG pode nos fazer ter acesso simbolicamente, por exemplo, à experiência da responsabilidade, da determinação, da frustração, da vitória, do esforço em prol do coletivo… Dos significados que damos àquilo que chamamos de “Vida”.

É por toda essa riqueza que há alguns anos trabalho com o ARG no Ensino Médio do Colégio Santa Maria. E sempre é uma atividade que desperta um envolvimento muito intenso dos alunos. Cada narrativa é elaborada para durar entre 4 e 6 meses. O desafio se renova a cada ano, com uma história diferente. E com melhorias no formato e no conteúdo, afinal, vamos aprendendo com os erros, como sempre. Em 2017, a história envolvia realidades alternativas, viagens no tempo e o fim do mundo. Em 2018… Bom, não posso dizer nada, pois o jogo já começou.

A utilização pedagógica do ARG é relativamente nova. Mas fora do Brasil já existem experiências até com o ensino superior. No nosso país, estamos engatinhando ainda. Há muito a explorar. E isso é sensacional. Há todo um caminho novo pela frente para quem se dispuser a experimentar essa ferramenta cheia de potenciais.  Espero que mais gente se interesse pelo assunto e que possamos conversar e trocar experiências. Enquanto isso não acontece, vamos seguindo aqui no Santa Maria com nossas aventuras…