A memória repetidora e a memória criadora

A memória repetidora e a memória criadora

Colégio Santa Maria

21 Março 2017 | 08h00

Autoria: Suzana Rodrigues Torres

O passado reconstruído não é um refúgio, mas uma fonte, um manancial de razões para lutar. Então, a memória deixa de ter aqui um caráter de restauração do passado e passa a ser a memória geradora do futuro: memória social, memória histórica e coletiva. (Eclea Bosi, 2012)

A memória, ou melhor, a falta dela nos preocupa, especialmente quando associada ao envelhecimento, naturalizamos a relação envelhecimento-perda da memória. Entretanto, sabe-se hoje que esta não é uma relação direta desde que a memória seja colocada em constante exercício, não como condição única, mas essencial.

Exercitar a memória, como se exercita o corpo para ganhar musculatura, é uma metáfora recorrente, mas talvez insuficiente. A repetição do movimento nos treinos físicos se estende no exercício da memória, mas, efetivamente, pouco resultado traz, repete-se, repete-se e repete-se e por fim o que temos é apenas evocação. Muito útil para guardar, por exemplo, números de telefones, mas para estes casos temos variadas tecnologias que dão suporte mnemônico.

A memória é uma senhora exigente, não se satisfaz com quantidades de informações para recuperar, declamar, tem sede de sentido, fome de conexões e relações. Uma brincadeira comum é repetir seguidamente uma palavra, muitas, muitas e muitas vezes até que ela se esvazia, perde o sentido e o nexo, mesmo as palavras mais familiares e corriqueiras ficam estranhas e meio malucas.

É preciso acordar a memória, mas não a memória repetidora, como nos diz Jorge Luiz Borges, queremos provocar a memória que cria, aquela que não descreve o vivido, mas o revela, reinventa, reinterpreta.

Gabriel García Márques intitulou suas memórias: “Viver, para contar”, um título que serve para nos lembrar que a memória, mais do que exercício, é um jogo, jogo que se joga junto, que encontra sentido com o outro e nele se encontra. Partilhamos as memórias com outros e nesta partilha nos reinventamos, reordenando, atribuindo sentidos, ampliando o nosso universo de experiências e o do outro, a partir do passado vivido, reconstituído, entendemos melhor o presente e projetamos futuros, damos um nó na linearidade do tempo, transgredimos a ordem usual e criamos mundos e possibilidades.

Somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos quebrados” (BORGES, 1974, p. 981)

No Prisma – Centro de Estudos do Colégio Santa Maria – em seus cursos livres, voltados principalmente para as pessoas com mais de 50 anos, são várias e múltiplas as propostas em que a memória seja acordada, instigada e exercitada, especialmente nos cursos “Escrevendo Memórias” e “Cadernos de Percurso” em que a memória encontra as linguagens como caminho de expressão, campo de tensão entre o vivido e os desafios narrativos que encontra o eu e o outro.

Em “Escrevendo Memórias” a escrita de si e a leitura do outro se traduzem em um par indissociável. Nesse sentido, a linguagem é primordial, matéria-prima para encontrar sentido para uma realidade caótica e finita.

No curso “Cadernos de Percurso” a multiplicidade das linguagens é convocada para a partilha das experiências vividas. Desenhando, representando, cantando, contando as vivências cotidianas vão se organizando numa espécie de diário em que o banal coteja o extraordinário.

Prefira o debate às palavras cruzadas!

Prefira a boa prosa ao jogo de paciência!

Opte pela memória que cria!

21032017