A “Lupa Poética”

A “Lupa Poética”

Colégio Santa Maria

23 Setembro 2016 | 07h45

Autoria: Sandra Moreira de Macedo e Ednilson Oliveira

 

Via Láctea (trecho XIII)

 

 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

 

E conversamos toda noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

 

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizes, quando não estão contigo?”

 

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas”.                     

(Olavo Bilac)

(Publicado em Antologia Poética – Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 28)

 

Desde o início da civilização, o homem contemplava as estrelas.

Através da observação dos astros, havia uma necessidade de compreender, organizar e relacionar os fenômenos astrais e os seus reflexos na terra e no homem. Essa observação, em um plano científico, daria ao homem instrumentos para se orientar na terra: contagem de tempo, marcação dos ciclos de estação, “noção de pertencimento a um planeta” etc.

Mas daria a contemplação dos astros algum instrumento ao homem para se orientar na terra, também no plano artístico?

O homem e a noção de “pertencimento ao planeta terra” se concretizam, também, na linguagem artística. É na linguagem que o artista se coloca como “ser” atuante no mundo. No caso da poesia, o poeta tem como instrumento de linguagem a palavra e é em posse desse instrumento que se fará atuante.

O poeta, através da “intensificação” da palavra, cria a sua “lupa científica”. Essa “lupa” fornece imagens ampliadas de “estados de alma” minúsculos, ou também, fornece imagens aproximadas de “estados de alma” que se encontram distantes. Essas imagens passam a fazer enxergar o “não-visível” e passam a ajudar na compreensão do mundo, das nossas dúvidas, das angústias, das perplexidades. O “estado da alma” que foi “criado” nas palavras do poeta passa a ser vivenciado na realidade. Ele propicia um ambiente favorável para se “alojar” o sentimento de “orientação na terra” e de aproximação entre as pessoas.

Pensando na forma atuante da observação e contemplação dos astros e da escrita poética, a disciplina de Física do Ensino Médio do Santa Maria se uniu à disciplina de Literatura em uma oficina de observação de estrelas/ oficina de poesia. A ideia era criar um ambiente inspirador do fazer poético, a partir da observação dos astros e criar um ambiente favorável de fazer poesia coletiva/ compartilhada. A criação desse ambiente também era uma tentativa de se aproximar dos saraus já existentes em São Paulo, que resistem com a passagem do tempo.

Para essa dinâmica, todos os alunos do Ensino Médio foram convidados a participar da oficina de observação fora do horário escolar. A oficina foi separada em dois momentos: o primeiro era o de sensibilização por meio da observação dos astros através de imagens; o segundo era o de criação oral de poemas coletivos, a partir de palavras que surgiram dessa observação. Essa criação coletiva nasceu de jogos de interação e da afinação do grupo propiciada pelo ritmo.

O resultado da oficina foi um ambiente acolhedor e de descontração. A entrega dos participantes foi além da esperada; todos se “entregaram” às brincadeiras de ritmo e do fazer poético. Assim, a ciência e a poesia se unem e se colocam à disposição dos não “iniciados”. A poesia e a ciência, quando postas em “ação”, em grupo, tornam-se “orientação” no fazer “coletivo” no mundo, com uma visão mais humana, sem perder o foco na observação do planeta!

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