A limitação que nos faz lembrar do essencial

COLÉGIO SANTA MARIA

04 de setembro de 2020 | 07h30

Autoria – Adão Abucham Sandes Gomes

 

Se, enquanto bebês, desistíssemos de andar após muitas tentativas frustradas em ficar na postura ereta, ou não tivéssemos a referência do outro, do outro corpo que se locomove através do andar para nos espelharmos, como seria nosso padrão de locomoção? O andar é uma habilidade que se enquadra no padrão de movimento básico, assim, tendemos a naturalizá-lo e, em certo aspecto, até desprezá-lo, pois é uma conquista que mais cedo ou mais tarde todos atingimos. Mas é importante lembrar que só conquistamos porque temos o outro como referência e, sobretudo, insistimos em muitas tentativas.

 

A experiência em ficar obrigatoriamente em isolamento social nos alterou a vida de forma abrupta, radical e nos causou muitas mudanças, mas nesta reflexão, o foco será em dois aspectos que de tão “natural” são, assim como o andar, desprezados em nosso cotidiano: o contato corporal (o encontro) e a possibilidade de mover-se em espaço amplo. Mas a falta, o impedimento obrigatório, o isolamento nos fazem perceber o quanto é importante estar com outras pessoas e, também, se movimentar. A restrição tem ressaltado algo adormecido e importante.

 

Por mais que os diversos cursos de Educação Física coloquem o corpo e o movimento humano como eixos estruturantes de seus objetivos, destacando e valorizando a necessidade na realização de movimento regular, organizado e sistemático no cotidiano, esse propósito dos cursos parecem ser compreendidos e valorizados, mas não muito incorporados, haja vista a quantidade de pessoas que se enquadram como sedentárias. Muitas hipóteses podem ser pensadas para tentar explicar tal comportamento, muitas delas válidas e coerentes.

 

Creio que uma explicação possível e, de tão óbvia, pouco pensada, é o fato de ser algo fácil, possível, até “natural”. Logo, tendemos a certo desprezo por aquilo que já conquistamos, dominamos e que, quando desejamos, realizamos. Esse pensamento permanece até o momento que se decide realizar algum tipo de movimento de forma regular. Surgem diversas “complicações”, desde não saber o que fazer (e não gostar de nada que gere algum esforço) até a famosa falta de tempo. Assim, deixamos o movimento “de lado”.

 

A experiência em ficar obrigatoriamente isolado fez com que, entre outras inúmeras sensações, a falta do movimento, do encontro com outras pessoas se tornassem algo angustiante e percebido como necessário. Desta forma, em muitos lares, iniciou-se a busca da realização de movimento (aquele possível em um curto espaço) até por pessoas que costumam ser sedentárias. Ou seja, a falta, a impossibilidade de um mínimo fizeram ressaltar a necessidade. Necessidade para quê? Nem sempre identificada.  A resposta mais corrente é a saúde, mas creio que a questão vai muito além. A falta fez ressurgir uma “vontade” que tem relação com a nossa origem, nossa evolução, nossa ancestralidade. Talvez esse comportamento tenha relação mais com antropologia do que com saúde: o corpo em movimento gera o encontro com o outro. Condição inerente do Humano.

 

Assim como a complexidade em se atingir o padrão do andar costuma ser desconsiderada, pois  é algo já conquistado e visto como “simples”, a realização de movimento e o contato com outras pessoas também têm sido. A partir dessa experiência impactante da falta, do não poder, da limitação, trazida pelo isolamento, vem à tona o necessário. O que nos falta em essência. Creio que quando pudermos ocupar as ruas, circular com liberdade, estaremos muito mais dispostos ao movimento corporal e ao encontro com o outro.

 

Adão Abucham Sandes Gomes é professor de Educação Física do Ensino Médio, unidades curriculares de Oficina de Corpo em Movimento e Laboratório de Esportes Coletivos, para a 1ª série, e de Educação Física para a 2ª série

 

 

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