A Geografia do novo coronavírus

Colégio Santa Maria

25 de maio de 2020 | 07h30

Autoria – Haroldo de Godoy Bueno

 

No momento em que há, em todo o mundo, milhões de infectados pela Covid-19, doença causada pelo vírus Sars-Cov-2 (novo coronavírus), trago aqui algumas reflexões sobre a pandemia e suas relações com a Geografia.

Em dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada pelo governo chinês de uma misteriosa doença letal com síndrome respiratória aguda verificada na megacidade de Wuhan, localizada na porção oriental da China. Havia indícios de que se tratava de um novo tipo de vírus da Cepa coronavírus, com origem vinculada a animais silvestres.

No início de janeiro, já eram mais de 40 infectados e 1 morto na cidade asiática, naquilo que passaria rapidamente  de um surto (quando há um aumento rápido do  número de casos de uma doença em uma região específica) a uma epidemia (quando há o crescimento inesperado de uma doença em várias regiões de um país) e, posteriormente, desde o dia 11 de março, passou a ser considerada pela OMS como pandemia (quando há  crescimento inesperado de uma doença por um grande números de países)  da Covid-19, infecção provocada pelo novo coronavírus.

A  pandemia do novo coronavírus  não afeta apenas a saúde e põe em risco a vida das pessoas, mas também atinge diretamente a dinâmica econômica: afeta todas as cadeias globais de suprimento, fecha fronteiras, paralisa diversas atividades econômicas, derruba bolsas de valores, cancela eventos, reduz drasticamente empregos, renda e coloca o planeta na rota de uma profunda recessão econômica, talvez a maior da história, que certamente trará efeitos catastróficos a todos os países, em especial àqueles que não promoverem ações preventivas nas áreas sanitária e econômica.

Outro aspecto importante a ser esclarecido é sobre a origem biológica do novo coronavírus, segundo especialistas em virologia e epidemiologia. São inúmeros artigos científicos publicados, como os da Revista Nature (uma das mais conceituadas revistas científicas do mundo), sobre o assunto, que vão na mesma direção: o novo coronavírus (novo porque o coronavírus só circulava nos organismos de animais silvestres) migrou de animais para os seres humanos obedecendo a uma lógica de evolução natural (eita Charles Darwin!).

É muito provável que o novo coronavírus tenha saltado do morcego (animal que carrega grande quantidade de vírus) para o organismo humano através de um outro hospedeiro intermediário (suspeita-se ser o pangolim, um mamífero muito comum na Ásia). E foi na China que este processo se deu. Já o hábito cultural do comércio de animais silvestres, como acontece em muitos outros países do mundo, pode ter contribuído para que o vírus desse o “salto” evolutivo ou para a evolução genética para os seres humanos.

Portanto, evidências científicas apontam que o vírus migrou do morcego (animal que carrega grande quantidade de vírus) para um animal silvestre e deste para os seres humanos. Eis a tese mais provável da pandemia da Covid-19 e não aquela que circula pelas redes sociais, teorias conspiratórias de que o vírus tenha origem em laboratório chinês. Teorias que só servem para espalhar informações sem nenhuma evidência científica e com propósitos bastante duvidosos.

Outra questão importante é quanto à origem geográfica do novo coronavírus. Por que a China se tornou o epicentro inicial desta pandemia?

Em primeiro lugar, a China é um país muito extenso e com grande variedade de paisagens naturais, com grande diversidade de fauna e flora. Segundo, a China é um país com grande população, o mais populoso do planeta (com 1,3 bilhão de habitantes), um verdadeiro “formigueiro humano”, em especial na sua porção leste (oriental), onde se concentra 90% de seus habitantes, e megacidades, como Wuhan, o que facilita a propagação de vírus. Em terceiro lugar, o hábito cultural de comércio de animais silvestres, tradição muito antiga na China associada à alimentação, medicina tradicional e criação doméstica.

Estes três fatores podem ser considerados importantes para entendermos a origem geográfica do novo coronavírus e sua rápida propagação pelo país.

Em poucos dias, a Covid-19 transpôs a fronteira da República Popular da China e atingiu os países vizinhos, Japão e Coreia do Sul. Depois, o vírus se deslocou em direção ao leste, atingindo em cheio o Irã, a Turquia e chegando fortemente na Europa, afetando dramaticamente a Itália (região da Lombardia, Piemonte e Vêneto), na porção setentrional do país; também  Espanha, Alemanha, Reino Unido e França, países com maior número de contaminados  e mortos pela Covid-19, os mais afetados do continente.

Na sequência, a pandemia atravessou o Atlântico e chegou à América do Norte, atingindo duramente os Estados Unidos da América, epicentro atual da epidemia, sendo o estado de  Nova York o caso mais dramático e calamitoso do país.

Então o novo coronavírus chega à América do Sul. Equador e Brasil são os países mais afetados, tendo Guayaquil (Equador), Manaus, Fortaleza e São Paulo como as localizações mais dramáticas da pandemia no subcontinente americano, ainda em curva ascendente.

Outro aspecto que propus discutir neste texto para estabelecer relação da Geografia com a Pandemia do novo coronavírus são os fatores geográficos presentes na propagação global da Covd-19.

Clima e pandemia (em que pese ser um fator de menor importância)

Se observarmos o mapa da distribuição espacial da pandemia, na primeira e segunda ondas da sua expansão geográfica, notamos que afetou principalmente os países localizados no hemisfério Norte durante o inverno (dezembro a março), estação em que as pessoas costumam se aglomerar em lugares fechados, o que facilita a propagação de vírus.

A demografia e a pandemia

O perfil demográfico de um país também pode ser considerado na expansão da pandemia, já que os países mais afetados pelo novo coronavírus apresentam elevada expectativa de vida e, portanto, um grande número de idosos na composição de sua população. Pessoas com mais de 60 anos são os que desenvolvem os casos mais graves da Covid-19 e entre eles estão as maiores taxas de mortalidade, como por exemplo, Itália, Espanha, Alemanha, França, Reino Unido, Coreia do Sul e Japão.

A globalização e a pandemia

Este é sem dúvida um dos mais importantes fatores geográficos da pandemia. O processo de globalização, acelerado pelos avanços dos meios de transporte e de comunicação, tornou as distâncias irrelevantes e intensificou trocas entre países (bens, serviços, informações e capitais), mas também ampliou o número de pessoas em viagens pelo mundo, o que contribui para a disseminação da Covid-19. Basta olhar para o mapa da pandemia e verificar que os países mais afetados pela Covid-19 são também os mais integrados ao processo de globalização, seja pelo fluxo de negócios ou de turismo, como por exemplo, EUA, China, Itália, França, Reino Unido, Alemanha e Espanha.

O tempo de resposta dos países à pandemia 

Os países e os lugares que rapidamente lançaram mão de políticas sanitárias, como isolamento horizontal e confinamento social, achataram suas curvas de contágio e puderam evitar o colapso de seu sistema de saúde. Uso de máscaras, confinamento social, testes em massa, investimentos em saúde pública, em pesquisa científica, em hospitais de campanha e respeito da população às orientações dos profissionais da saúde tiraram os países asiáticos do foco da pandemia, como China, Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Japão. Alemanha e Portugal são tidos como outros exemplos positivos de combate ao novo coronavírus. Em contrapartida, Brasil, Bielorússia, Rússia, Turquia e Nicarágua são tidos pela imprensa internacional, comunidade científica e OMS como maus exemplos de resposta à pandemia. Os números crescentes de contaminados e de óbitos nestes países confirmam o cataclismo em que se encontram.

Desigualdade e pandemia

A desigualdade social é sem dúvida um fator geográfico e sociológico considerável na expansão da doença. O Brasil é um dos exemplos mais notórios desse fator. Passado o momento inicial do contágio, em que se observou a contaminação de habitantes de bairros centrais das grandes cidades, a explosão de casos nestas duas últimas semanas vem acompanhada da expansão da Covid-19 nas periferias e em comunidades carentes urbanas, superpopulosas, pobres, sem saneamento e desprovidas de serviços essenciais de saúde.

Estamos diante da pior fase da história sanitária do planeta que, com certeza, trará mudanças significativas nas relações econômicas, políticas e sociais para toda a humanidade. Que nossos aprendizados façam surgir um mundo mais solidário, justo e humano. Enquanto isso não acontece, fique em casa, acredite na ciência, exija justiça social e defenda o serviço público de saúde.

 

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