À espera de novas mudanças

COLÉGIO SANTA MARIA

19 de abril de 2021 | 07h00

Autoria – Darci Garcia

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já afirmava Camões, no século XVI, quando, diante da passagem do tempo, fugaz, fugidia, reconhecia mudanças em si mesmo e no mundo: em nossas emoções, em nossas relações com o outro, em nossos valores, em nossa leitura de mundo, em nossa confiança em relação a pessoas, instituições. O poeta fica estupefato diante da irreversibilidade das coisas, da impossibilidade do resgate de si mesmo, percebendo não mais se reconhecer diante do que lhe acontece, constatando que até a mudança está se modificando.

Assim, é como muitos de nós se sentem diante dessa situação inexorável, da qual ninguém escapa e da qual somos todos vítimas. Mas, de maneira paradoxal, parece que a pandemia que se esgarça pelo mundo insiste em continuar. A escola parou em meados de março de 2020, reiniciou os trabalhos timidamente ao final do ano e em meados de março de 2021 voltou a parar. A lei do retorno, de Nietzsche? Se a ideia da mudança incessante gera ansiedade e impotência diante da impossibilidade de controle da própria vida, o retorno e a insolubilidade das situações desmascaram a fragilidade humana diante de si mesma e do próprio viver. Que fazer diante de uma situação de pandemia que insiste em se fazer presente? Soluções emergenciais acontecem, mas não nos tiram da ineficácia, são apenas insinuações de resolução.

Se vivíamos anteriormente em doce canto, hoje amargamos dissabores diante de um mundo rendido ao vírus, acumulando perdas irreparáveis. Na escola, mudanças acontecem, novos encaminhamentos, novas tecnologias, novas abordagens, novas estratégias. Tudo isso pretende garantir o ultrapassar dessas mudanças, garantindo sempre o propagar do conhecimento, mesmo que com perdas emocionais de relacionamentos que não conseguem manter o vínculo do olho no olho, de relações claras e verdadeiras, formadas lado a lado, nas salas de aula, nos corredores, na sala dos professores, entre amigos, entre funcionários. As relações afetivas não deixam de acontecer diante da carência de todos nós, mas a artificialidade e a superficialidade parecem sempre querer um espaço, relevando os paradoxos das relações.

Se o mundo é transitório, na ideia de Heráclito, já que nos deparamos com a multiplicidade e o dinamismo do Universo, e apesar do desconcerto do mundo, que possamos superar tais tempos desarticulados, de relações fragmentadas e fragilizadas. Que possamos muito em breve retornar ao nosso antes, embora tão desconcertado quanto o presente, mas um antes sem o mal que hoje nos debilita e concluir, como Camões, que “do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem, se algum houve, as saudades”

 

Darci Garcia é professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio do Colégio Santa Maria.

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