A escola e a política

Colégio Santa Maria

30 de junho de 2017 | 07h30

Autoria: Thiago Braz

Em um passado não muito distante, era comum encontrar quem considerasse que as Ciências Humanas ensinavam o que “não serve para nada”. Essa fase certamente está superada. Pouca gente duvida, hoje, das potencialidades das humanidades. Houve, contudo, uma evidente inversão de expectativas: não se enxerga mais essas disciplinas como responsáveis pelo desenvolvimento da reflexão crítica necessária para a emancipação do ser humano e para a construção de uma sociedade melhor; mas como um iminente risco que ameaça tanto o homem como a própria reprodução social. Em um contexto marcado pela crise econômica e pelo acirramento das lutas pelo poder, o estudo das Ciências Humanas deixou de ser questionado para ser francamente contestado e combatido.

A infâmia a que foram relegadas as Ciências Humanas nos convida a refletir sobre o imaginário dominante sobre a política e sobre a influência que exerce na elaboração de nossa concepção de escola. Afinal, o que seria de um movimento como o Escola sem Partido sem o plano de fundo que se acostumou chamar de “negação da política”, a qual, por sua vez, é tributária do medo e da desesperança? Fazemos essas afirmações a partir da leitura da obra de Hannah Arendt, uma pensadora que desfruta de um raro privilégio, o de ser admirada à esquerda e à direita. Em um texto póstumo, a pensadora alemã escreve:

Não podemos ignorar os preconceitos sobre a política, porquanto estão presentes em nossa vida, e não podemos atenuá-los com argumentos porquanto refletem realidades incontestáveis e, com maior fidelidade ainda, a atual situação existente, de fato, justamente em seus aspectos políticos. No entanto, esses preconceitos não são juízos definitivos. Indicam que chegamos em uma situação na qual não sabemos — pelo menos ainda — nos mover politicamente. O perigo é a coisa política desaparecer do mundo. Mas os preconceitos se antecipam; “jogam fora a criança junto com a água do banho”, confundem aquilo que seria o fim da política com a política em si, e apresentam aquilo que seria uma catástrofe como inerente à própria natureza da política e sendo, por conseguinte, inevitável. Por trás dos preconceitos contra a política estão hoje em dia, ou seja, desde a invenção da bomba atômica, o medo de a Humanidade poder varrer-se da face da Terra por meio da política e dos meios de violência colocados à sua disposição, e — estreitamente ligada a esse medo — a esperança de a Humanidade ter juízo e, em vez de eliminar-se a si mesma, eliminar a política — através de um governo mundial que transforme o Estado numa máquina administrativa, liquide de maneira burocrática os conflitos políticos e substitua os exércitos por tropas da polícia. Na verdade, essa esperança é totalmente utópica quando se entende a política em geral como uma relação entre dominadores e dominados. Sob tal ponto de vista, conseguiríamos, em lugar da abolição da política, uma forma de dominação despótica ampliada ao extremo, na qual o abismo entre dominadores e dominados assumiria dimensões tão gigantescas que não seria mais possível nenhuma rebelião, muito menos alguma forma de controle dos dominadores pelos dominados. Esse caráter despótico não seria modificado pelo fato de não se poder mais descobrir uma pessoa, um déspota no contingente mundial — visto o domínio burocrático, o domínio através do anonimato do bureau, não ser menos despótico pelo fato de “ninguém” exercê-lo; pelo contrário, é ainda mais terrível porque nenhuma pessoa pode falar com esse Ninguém nem lhe apresentar uma reclamação (ARENDT, Hannah. O que é a política, p. 10).

A autora estabelece três pontos fundamentais: 1) os preconceitos contra a política não são ideias falsas que os sujeitos professam, mas realidades efetivas que passam a substituir a política na prática cotidiana. 2) O principal preconceito contra a política consiste em tomá-la por aquilo que é a sua negação, constituindo um ideal perseguido pelos indivíduos. 3) O preço que se paga pela ausência da política é a catástrofe do totalitarismo. Redigido originalmente na década de cinquenta do século passado, o trecho acima reveste-se de uma desconcertante atualidade.

Um dos principais objetos de análise do pensamento arendtiano é o estudo do totalitarismo, identificado historicamente com os regimes nazista da Alemanha e socialista da União Soviética. Frente a esses totalitarismos de direita e de esquerda, a tradição liberal convenceu-se de que explicação desses sistemas encontrar-se-ia num excesso de política, a ser revolvido pela não ingerência do Estado nas esferas econômica e social. A esfera política restringindo-se à mera administração da vida coletiva considerada como a garantia das regras do jogo do mercado.

O primeiro equívoco de nossos preconceitos está em identificar a política ao aparelho de Estado. Tampouco, ela confunde-se com a administração ou com a gestão econômica. De acordo com Hannah Arendt, a política é uma construção humana diante do caos que nos habita. No seu seio está o problema das diferenças, isto é, a preservação da pluralidade e da liberdade contra a força e a coerção que homogeneízam a experiência humana.

O que faz com que os totalitarismos sejam os totalitarismos é precisamente uma maneira de silenciar os discursos que se opõe à visão hegemônica, impondo uma verdade que deve apagar todas as demais possibilidades de vida individual e coletiva. Dessa maneira, o totalitarismo, de que todos nós desejamos legitimamente nos defender, não se originam do excesso de política, mas de seu déficit.

Eis aí o paradoxo crucial e que inviabiliza toda forma de negação da política: para afastar a catástrofe do totalitarismo, arriscamos nos tornar plenamente totalitários. Essa questão está na base de uma proposta como a do movimento Escola sem Partido. Acusa-se a escola, especialmente a área de Ciências Humanas, de não produzir a necessária pluralidade, promovendo a doutrinação para determinada tendência, em geral, associada com a esquerda (mesmo que seja difícil definir o que esquerda ou direita, entendidas como universais abstratos, pensam sobre temas como o trabalho, a prostituição, o aborto, a religião etc.).

Cabe ressaltar que, mesmo que a acusação precise ser analisada em seu mérito, ela é legítima por princípios. Não porque, nesse caso, a escola estaria sendo política, mas por alimentar a produção de um consenso inquestionável. No entanto, é necessário reconhecer que a proposta do movimento Escola sem Partido resolve mal a questão, uma vez que impõe a coerção e a censura como forma de resolver os conflitos, ao invés de recorrer aos meios democráticos da participação, da ponderação e do diálogo.

A educação deve ser necessariamente uma educação política, no sentido de aberta às diferenças, pois é o direito à diferença o elemento que nos equaliza. É esse o espírito que anima as atividades do Colégio Santa Maria, especialmente na área de Ciências Humanas. Cabe a cada membro de nossa comunidade escolar fazer a sua avaliação sobre a qualidade de ensino que oferecemos. No entanto, o autor do presente texto recusa explicitamente a pecha de doutrinador, visto que a pluralidade das concepções de sociedade e o rigor com a análise dos textos e dos dados estão entre as suas principais preocupações. Da mesma forma, não é capaz de assentir sem protesto que esse adjetivo seja atribuído aos projetos desenvolvidos pela área. Convidamos a todas e todos a analisar as propostas e a dialogar sobre elas de maneira pública, democrática e decorosa.

Para concluir, fazemos uma ressalva que pode estar na base de nossas divergências. A ideia de política fornecida por Hannah Arendt tem a amplitude da diversidade. Contudo, essa diversidade não pode ser confundida como a pura confederação das opiniões, porquanto isso significaria o congelamento da pluralidade em disposições estanques, incapazes de se interpelarem mutuamente.  A política é o território do confronto e da disputa, de modo que é sempre necessário aprender a pensar contra si mesmo, caminho para a construção não só de uma educação política, mas de uma ação democrática.

A Constituição Federal de 1988, marco do processo de redemocratização do país, garante no inciso II do artigo 206, “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”. Como toda liberdade é limitada para que não recaia na tirania, os limites serão dados pelas próprias condições de criação de um mundo verdadeiramente político. Na escola não há, de fato, espaço para a defesa da intolerância, da tortura, da violência, em razão de que o violador, o torturador e o intolerante não podem reivindicar para si princípios políticos que não reconhecem.

Vale a pena assistir a esse vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=qzokoJxalEQ

 

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