A escola como espaço de revisão e de ampliação de vozes literárias

COLÉGIO SANTA MARIA

07 de junho de 2019 | 07h30

Autoria – Natália Ruela

 

 “A gente não pode esquecer a crueldade da regra. Que regra é essa da sociedade brasileira em que contamos nos dedos as mulheres negras que saem da posição de subalternidade em que somos colocadas?” (Conceição Evaristo)

 

A escola é, sabidamente, espaço de acesso aos saberes historicamente produzidos e consolidados. Contudo, observar as barreiras sociais, históricas e culturais que solidificam alguns saberes em detrimento de outros é, cada dia mais, necessário e inadiável nesse ambiente, visto que os saberes negligenciados podem ser igualmente produtores de sentidos e significados.

Pensando que, tradicionalmente, o estudo de literatura nas escolas é visto como uma possibilidade de contato com os clássicos literários e com as vozes que construíram nossa tradição cultural, muitas vezes a literatura não canônica e as vozes de grupos de minorias ficam às margens, assim como historicamente o ficam na tradição literária.

No entanto,  se ler é, também, construir sentidos e aprender valores, o que lemos tem grande influência na nossa maneira de ver o mundo e os seres humanos e o acesso a apenas alguns grupos e a algumas vozes restringe nossa possibilidade de (re)conhecer, questionar e (re)construir existências.

Embora a leitura de clássicos literários seja fundamental para a formação do indivíduo e da subjetividade, há uma “literatura paralela” que é rica em sentidos e em valores não visibilizados socialmente. O silenciamento de mulheres, negros (as), moradores (as) da periferia e indígenas, por exemplo, não pode ser visto como natural, pois, certamente, no decorrer dos séculos, eles e elas tiveram muito a dizer, mas, por razões culturais, sociais e históricas de poder, o número de escritores e escritoras representantes dessas minorias é muito pequeno ou inexistente na lista que compõe os grandes clássicos da literatura e, de forma geral, essas vozes não encontram espaço na educação básica.

Pensando na importância do contato com diferentes vozes e visões de mundo e na importância de trazer as vozes marginalizadas para o ambiente escolar, em 2019, a 2ª série do Ensino Médio do Colégio Santa Maria  propôs o currículo diversificado “Vozes silenciadas: a literatura de minorias e a resistência” e as aulas têm sido preenchidas por fascínio e prazer.

Nelas, busca-se a compreensão de qual a importância da literatura para os valores coletivos e individuais de um povo, o entendimento de quais as razões para que as vozes das minorias não estejam presentes entre os consagrados clássicos da literatura, o conhecimento a diferentes formas de manifestações literárias de minorias no Brasil e o diálogo entre produções ignoradas e absorvidas pelos clássicos tradicionais.

As aulas se desenvolvem como um grupo de estudos circular, que se debruça coletivamente na pesquisa e no debate sobre as diferentes vozes silenciadas, formando pessoas com a habilidade de ouvir, entender e conviver com as diferentes vozes presentes em nossa sociedade, de maneira empática, consciente e respeitosa.

A experiência no primeiro semestre evidencia que existe identificação e empatia dos alunos em relação a  vozes que eles anteriormente desconheciam – como a de Sérgio Vaz, de Conceição Evaristo, de Virgínia Woolf, de Daniel Munduruku e de  Caio Fernando Abreu, por exemplo –  e que essa identificação pode aproximar o adolescente do mundo das letras impressas, que para muitos parece ter perdido espaço para as mídias digitais. Ler pode ser um prazer. Ler o que faz sentido pode ser uma maneira de autoconhecimento. Ler o que é silenciado e marginalizado pode ser resistência e o início de uma luta.

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