A Cultura Maker na sala de aula

A Cultura Maker na sala de aula

COLÉGIO SANTA MARIA

05 de abril de 2019 | 07h30

Autoria: Claudia Mendes

 

“Aquilo que escuto, eu esqueço

Aquilo que vejo, eu lembro

Aquilo que faço, eu aprendo.”  – Confúcio

 

O pragmatismo de Confúcio já anunciava há tempos o que hoje se popularizou como a “cultura maker”, ou cultura dos fazedores. Apesar de intimamente ligada à tecnologia, a cultura maker está ganhando espaço nas salas de aula em que o aluno é o protagonista. Num futuro onde as carreiras clássicas perdem espaço para a inteligência artificial, nunca foi tão importante formar estudantes que pensem “fora da caixa” e solucionem problemas. Estes serão os profissionais do futuro. Assim, a escola não pode estar à parte dessa realidade, mas sim aberta às novas possibilidades de ensino-aprendizagem que tiram o aluno de sua zona de conforto e que lhe revelam habilidades adormecidas ou até mesmo desconhecidas.

Foi com esse olhar que recebi a turma de inglês do Ensino Médio de 2019 no Santa Maria. Mas, como desafiá-los? Uma atividade em grupo pareceu-me uma boa forma. Logo de início me deparei com a aversão dos alunos aos trabalhos em grupo. Investigando as razões para tanto, ouvi vários relatos. Eis alguns deles:

  • “Não dá para trabalhar em grupos escolhidos pelos professores”
  • “Sempre tem alguém que se encosta e o trabalho fica na mão de um ou dois membros”
  • “Tem sempre um líder que não quer tirar nota baixa e quer fazer tudo. Não sobra nada para fazer”
  • “Não gosto de me indispor com meus colegas e amigos”
  • “É difícil conseguir tempo para nos reunirmos”
  • “Os colegas bons querem formar grupo com outros bons e os que vão mal acabam ficando com colegas que não são estudiosos e o ciclo nunca acaba.”

Diante disso resolvi propor algo inusitado para que o trabalho em grupo pudesse ser um aprendizado para todos – para mim, inclusive. Pensei em um projeto que durasse o tempo de uma aula de 100 minutos e que eu pudesse acompanhar. Um projeto que fortalecesse os laços entre os colegas, organizasse a tarefa em grupo e quebrasse com a antiga ideia de liderança do pós-guerra; algo que pudesse revelar novos talentos e melhorar a autoestima de todos os envolvidos.

Sem qualquer aviso anterior, pedi que formassem grupos de até seis pessoas e se dirigissem ao pátio da escola onde entreguei a todos os grupos um kit que continha: instruções, 1 tesoura, 1 cola, 3 folhas de papel A3 e uma régua de 30 cm. Cada grupo pode levar 1 lápis, 1 borracha e 1 relógio para marcar o tempo. O objetivo era montar uma torre de papel com no mínimo 50 cm de altura que pudesse ser transportada e que aguentasse o peso de uma tesoura no topo. Expliquei da importância de dedicarem um tempo a um brainstorming, planejamento, manejo de tempo e divisão de tarefas antes de iniciarem a construção a fim de que a torre fosse erguida dentro do tempo solicitado. Surpresos, os alunos se debruçaram sobre o problema.

Circulei, monitorando e os ajudando nas suas eventuais dúvidas, sem interferir nas tomadas de decisões. Por fim, todos os grupos conseguiram erguer suas construções de papel, de um jeito ou de outro. Alguns cumpriram com todos os objetivos, outros não completamente. Na aula seguinte, retomamos as experiencias vividas por todos ao apresentarem suas torres para a classe, explicando os processos e as decisões tomadas ao longo do projeto, certas ou erradas. Um grupo de alunos que não conseguiu levantar a torre até a altura mínima, apesar de muito chateado, fez a melhor análise ao identificar o ponto em que o problema ocorreu e refletir como o projeto poderia ter tomado outro rumo a partir de então.

Através dessa atividade nos foi possível trabalhar várias habilidades, como  colaboração, comunicação, solução de problemas, planejamento, manejo de tempo, negociação e resolução de conflitos e a noção de liderança, através da qual notaram que diferentes líderes assumiram a frente em etapas distintas. Ou seja, compreenderam que num trabalho em grupo não existe um único líder, mas uma equipe de líderes com saberes diferentes que desempenham o seu melhor em diferentes etapas para solucionar um problema maior e atingir um objetivo – no caso, a construção da torre de papel.

Hoje esses alunos encaram as tarefas propostas como um projeto. Uma boa produção escrita, por exemplo, implica em passar pelas diferentes etapas, como o brainstorming (levantamento de ideias), o planejamento (como podemos organizar as ideias), a análise de recursos (vocabulário/gramática/repertório), o manejo do tempo (prazos), para citar algumas. Dessa forma, para esses estudantes o tão falado protagonismo torna-se mais concreto, pois têm, de fato, as rédeas do seu processo de aprendizado e reconhecem na alegria da realização uma fonte de inspiração.