A complexidade de um cotidiano

A complexidade de um cotidiano

COLÉGIO SANTA MARIA

14 de setembro de 2021 | 07h00

Autoria: Fernando Uesato

No Ensino Médio do Colégio Santa Maria, temos uma grande preocupação em dar subsídios conceituais às estudantes e aos estudantes para que possam interpretar este vasto e complexo mundo em que vivemos.  Na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, isso acontece abordando os fatores e elementos que, de alguma forma, orientam nossa vida coletiva e individual e que por isso influenciam na maneira em que enxergamos o mundo.

Na 1ª série, dentro do componente curricular Paisagem e Cotidiano, debatemos neste bimestre uma das categorias sociais que dão nome ao componente: a categoria de Cotidiano.

Apesar de parecer banal, essa categoria resguarda uma série de complexidades que a tornam um ponto de interesse dos mais variados campos do conhecimento, como Geografia, História, Psicologia, Filosofia e Sociologia, e até mesmo de ensaístas que não se enquadram especificamente em uma divisão disciplinar do conhecimento, como é o caso de Guy Debord, autor do livro “A Sociedade do Espetáculo”, publicado no final dos anos 1960, consequência dos movimentos de maio de 1968 em Paris. Este último é de grande importância para a compreensão do mundo contemporâneo. Em seu livro, Debord retrata o momento Espetacular do desenvolvimento da sociedade moderna, no qual a imagem ganha um peso brutal nas relações sociais e na forma como o mundo passa a se desenvolver.

Para refletir sobre esse contexto, usamos um artigo do escritor alemão Anselm Jappe, um grande conhecedor tanto do pensamento de Debord quanto da chamada Escola de Frankfurt (Institut für Sozialforschung), um importante espaço de abordagem interdisciplinar que surgiu na Alemanha nos anos 1920. No texto intitulado “O complô das imagens”, publicado no jornal Folha de S.Paulo, Jappe comenta um pouco sobre o pensamento do autor francês: (…) “Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real. Têm de olhar para outros (estrelas, homens políticos etc) que vivem em seu lugar. A realidade torna-se uma imagem, e as imagens tornam-se realidade; a unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem” (…)

Com base nisso, começamos a analisar o Cotidiano, esse recorte temporal que à primeira vista aparece apenas como uma fração do tempo cartesiano, mas que, após as indagações suscitadas pelo texto, revela-se um complexo objeto de estudo: saímos da simplicidade das leituras imediatas para descobrirmos as camadas e as relações de poder que transformam a vida e o cotidiano sem que possamos percebê-los. Desvelamos a estrutura social e passamos a notar as relações que antes não eram observadas; aquilo que era simples, ganha complexidade.

Para a turma de discentes é fácil perceber a concretude desse enigmático conceito: quase a totalidade deles têm um perfil em alguma rede social. Aqui, o conceito abstrato ganha sentido ao explicar um movimento no qual todos se veem inseridos. É desta forma que trabalhamos os conceitos: fazendo-os relevantes dentro do processo de ensino-aprendizagem.

Ao fazer isso, aprimoramos as habilidades e competências necessárias não só para a vida estudantil, mas também para a formação de cidadãos que interfiram na sociedade dentro de uma perspectiva coletiva, crítica e solidária. Assim, esperamos contribuir para uma formação mais completa e para uma sociedade mais justa.

* A imagem que ilustra este texto é uma fotografia da revista LIFE, de J.R. Eyerman (1952), que serviu de capa para a primeira edição de ‘A sociedade do espetáculo’, de Guy Debord (Reprodução).

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