1984, de George Orwell, fala para nossos(as) adolescentes

COLÉGIO SANTA MARIA

26 de março de 2021 | 07h00

Autoria – Adriano Santos

Distopia. Conceito relativamente novo, surgido da desilusão da humanidade em relação à utilização da tecnologia. Se, ao final do século XIX, havia a esperança de que os inúmeros avanços científicos seriam a salvação do mundo, o começo do século XX foi um golpe duro nessa expectativa, já que a Primeira Guerra Mundial mostrou que a tecnologia poderia também ser utilizada para matar milhões. A diferença, claro, estava nas mãos do ser humano.

A primeira distopia é o livro Nós, do russo Ievguêni Zamiátin, publicado em 1924. Mostrando uma sociedade futura em que a tecnologia era utilizada como mecanismo de controle, a obra traduzia muito da sensação de frustração. Em 1932, influenciado pelo livro de Zamiátin, é publicado Admirável Mundo Novo, do inglês Aldous Huxley, em que o controle da população é obtido por um condicionamento que faz as pessoas acreditarem que são felizes, sem motivos para desejarem mudar a situação. Em 1949, outra obra distópica influenciada pelo autor russo é publicada: 1984, de George Orwell. Esse é o livro trabalhado no primeiro bimestre nas aulas de literatura do Ensino Médio do Santa Maria.

Retratando uma sociedade decadente e sob intensa vigilância, 1984 traz à tona questões como a perda da privacidade e a ausência de afeto. Winston Smith, o protagonista, depois de passar anos trabalhando no Ministério da Verdade alterando informações sobre o passado de acordo com os interesses do Partido, passa pelo processo de voltar-se contra os integrantes da elite governante.

Interessante perceber o quanto o livro envolve alunas e alunos por tratar de temas atemporais e, portanto, ainda presentes em nossa sociedade. Desde o programa de TV Big Brother (que muitos estudantes não sabiam ser inspirado na obra de Orwell) até a lista de livros proibidos do governo de Rondônia em 2020 (Machado de Assis! Kafka! E muitos outros), vários eventos atuais mostram a importância que as obras distópicas têm, no sentido de incentivarem uma leitura ampla de fatos sociais que podem, no futuro, culminar em uma realidade regida pelo controle e pela falta de liberdade.

No livro, a relação amorosa entre Winston e Julia surge como um ato político, já que vai contra o que o Partido prega. Para esse governo totalitário, se as pessoas têm afetos, sentimentos, isso é um risco à ordem estabelecida. No romance Admirável Mundo Novo existe até uma frase hipnopédica para essa ideia: “quando o indivíduo sente, a sociedade treme.” O sentimento nos impulsiona, faz com que lutemos por aquilo que amamos. Assim, condicionar as pessoas a não sentirem torna-se mais um mecanismo de controle social, pois diminui a probabilidade de algum tipo de revolta. Num momento em que percebemos nosso distanciamento, tanto por conta da pandemia quanto por conta de divergências políticas, torna-se essencial discutir a importância das relações.

Na Londres de 1984, aqueles que demonstram inortodoxia, ou seja, pensamento contrário àquilo que o sistema prega, são presos e “vaporizados”. Desaparecem durante a noite e nunca mais são vistos. Seus nomes são apagados de todos os registros. Ninguém fala mais neles. É como se nunca tivessem existido. São “cancelados” por pensarem diferente. Alguma semelhança com os cancelamentos de nossa sociedade atual? Imediatamente alunas e alunos percebem que sim. E está colocado o espaço para reflexão.

Cercados por câmeras de todos os lados, vendo pessoas entregarem sua privacidade online, governos censurando livros, diálogos deixando de existir e cancelamentos ocorrendo o tempo todo, temos a necessidade de discutir nossa realidade com nossos adolescentes. É justamente esse o objetivo de toda obra distópica: tratar de questões de seu tempo, para que a situação social não se deteriore no futuro.  Para que a previsão da personagem O’Brien não se concretize: “Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano – para sempre.”

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