Tecnologias da Informação e Comunicação na educação: desafios da alfabetização digital nas comunidades escolares brasileiras

Colégio Santa Amália

25 de janeiro de 2022 | 11h19

Maurício Nascimento

Professor do Colégio Santa Amália Maple Bear – Ensino Bilíngue (*)

 

Há alguns anos, a comunidade escolar tem sustentado o discurso da equidade de acesso à informação a todos os seus entes formadores, de maneira que os desafios individuais possam ser levados em conta mediante às vicissitudes tão próprias da dinâmica de ensino-aprendizagem. Hoje, mais do que nunca, tais dinâmicas ultrapassam os limites da sala de aula e são pungentemente exigidas para ações mínimas da vida cotidiana. Entre tantas áreas que fazem esse discurso verdadeiro, destaque é dado à tecnologia: amada por uns, evitada por outros, porém presente na vida moderna de maneira muito essencial e nada, nada efêmera.

Abordando apenas uma amostra desse vasto universo de conhecimento, as tecnologias educacionais tomaram corpo de forma exponencial nos últimos meses. As imposições trazidas pelo distanciamento social expuseram fraquezas e adaptabilidades nesse campo, permeadas por prazos imediatos para execução. Lembro-me, durante a minha primeira formação acadêmica, de um querido professor de Física II enfatizando, aula a aula, a respeito do quanto as TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) seriam essenciais para o andamento da sociedade nos anos futuros. Naquele momento, somente utilizando as parcas experiências computacionais que tínhamos enquanto estudantes, éramos levados a acreditar que aquelas palavras do sábio mestre não passavam de um exercício de futurologia; contudo, hoje vivemos o futuro e eu atesto a sabedoria daquele nobre professor.

A UNESCO tem se posicionado assertivamente a respeito das várias adaptações que a educação brasileira precisa vivenciar para que a alfabetização tecnológica da população se efetive. Ao citar a necessidade de um Marco Político de Padrões de Competência em TIC para Professores, é proposto que as instituições responsáveis pela oferta de formação docente levem em consideração três aspectos básicos: alfabetização em tecnologia; aprofundamento do conhecimento; e criação do conhecimento. Explorando a temática de alfabetização em tecnologia, é proposto de que alguns tópicos sejam tomados como norteadores no planejamento educacional: conhecimento básico; tecnologia integrada; ferramentas básicas; salas de aula padrão; e alfabetização digital.

Enquanto conhecimento básico, professores, coordenadores e responsáveis pelos alunos precisam se apropriar do conhecimento a respeito de pacotes de programas que sejam ligados ao cotidiano do mundo do trabalho atual, de maneira em que consigam auxiliar o corpo discente na aquisição de habilidades em TICs no contexto de sua idade e série cursada. Logo, a sociedade precisa avaliar em que ponto a sua própria alfabetização em tecnologia se encontra, pois necessitam servir como modelos para os mais jovens no processo de aprendizagem.

No entanto, vale ressaltar que existem desafios iminentes a serem considerados nessa avaliação: segundo o IBGE, 86,7% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet, contudo a situação em certas regiões do país ainda se encontra bastante distante desses números. Somente 55,6% dos domicílios rurais brasileiros têm acesso à internet, taxa que cai para 51,9% nos estados do nordeste e para preocupantes 38,4% nos estados do norte do país. A maior parte dos pesquisados pelo instituto utiliza o celular para acessar a internet, 98,6%; contudo, a porcentagem cai para 46,2% se considerarmos as pessoas que utilizam computador para essa finalidade. Uma vez que a educação móvel ainda está em pleno desenvolvimento (com avanços consideráveis, é claro), facilmente concluímos que a alfabetização digital voltada às TICs na educação ainda enfrenta massivas barreiras para que se estabeleça de fato.

Ainda que estando em pleno desenvolvimento, destaco a força e os desafios que a chamada aprendizagem móvel apresenta. Por uns, é vista como uma solução para melhorar a eficiência educacional; por outros, como um distrator, semeador de conflitos éticos, de direitos de imagem e de propriedade intelectual. Enquanto comunidade escolar, necessitamos buscar equilíbrio quanto aos benefícios e desafios trazidos por essa modalidade de educação. Professores, alunos e famílias bem instruídos reconhecerão as finalidades de dispositivos móveis no processo de ensino-aprendizagem, fazendo uso consciente dessas ferramentas. Durante esse processo de instrução, a comunidade escolar precisa discutir, envolvendo todos os seus entes, questões éticas e de direito no tocante à utilização das produções individuais e coletivas. Todos necessitam compreender que não são proprietários da imagem e da produção alheia e, consequentemente, não têm o direito de compartilhá-las indefinidamente, sem qualquer permissão de todas as partes envolvidas. Em uma época de grande destaque dado à imagem midiática produzida de cada um, é necessária a discussão na sociedade sobre o direito do próximo de manter sua privacidade, em conformidade com o quinto artigo, inciso X da constituição federal brasileira e no marco civil da internet, terceiro artigo, inciso II.

Fato é que necessitamos mobilizar a comunidade escolar na discussão a respeito de quais serão as diretrizes tomadas para que as TICs na educação se tornem parte de nosso cotidiano. Rodas de conversa sobre o tema, envolvendo alunos e responsáveis, precisam se tornar rotina para nós, quer sejam de maneira tradicional ou virtual. Gestores e professores devem se engajar para conhecer as várias propostas de implementação das TICs, delineando aquelas que melhor se aplicam à sua realidade e estabelecendo metas, prazos, acompanhados de avaliações periódicas que produzam um diagnóstico claro a respeito de nossas evoluções e pontos a melhorar. Sendo de apreço nosso ou não, ignorar ou passivamente discordar de todas essas mudanças já deixou de ser uma opção. É hora de nos envolvermos e, com responsabilidade, decidirmos quais caminhos tomaremos em um mundo o qual ser alfabetizado também significa “ler” as nuances digitais disponíveis.

 

Referências Bibliográficas:

 

(*) O Colégio Santa Amália Maple Bear – Ensino Bilíngue é entidade mantenedora da Liga Solidária, organização que atende famílias em situação de alta vulnerabilidade na capital paulista.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.