Poema: espaço para a subjetividade

Colégio Santa Amália

16 de dezembro de 2019 | 10h26

Ao longo de seu percurso escolar, os alunos são apresentados a diferentes gêneros textuais e têm a oportunidade de conhecer muitos autores e diversas realidades linguísticas. Esse é um movimento muito importante para o desenvolvimento e enriquecimento textual dos educandos e amplia o olhar dos estudantes para realidades além dos muros da escola e de suas casas.

No sétimo ano, são estudados alguns tipos de textos, como mitos, romances de aventura, textos de divulgação científica, notícias, reportagens, artigos de opinião, anúncios publicitários e poemas. Alguns são mais objetivos e tratam de temas coletivos − como as explicações sobre o universo e o mundo em que vivemos, propostas pelos mitos e lendas. Outros abarcam conteúdos mais subjetivos e de caráter individual, como fazem os poemas.

De acordo com a temática tratada e o gênero considerado, as produções textuais dos alunos são um convite a penetrar no universo deles e saber mais sobre o que os move.  Nesse sentido, é por meio dos textos que podemos conhecer melhor os valores trazidos por cada aluno, as experiências que já tiveram, os conteúdos que já estudaram e a realidade que vivenciaram.

É muito interessante observar a criatividade e empolgação diárias virarem um texto escrito. Narrativas longas e cheias de reviravoltas são constantes, assim como o uso de cores vibrantes e layouts criativos nos anúncios publicitários. Não faltam exemplos de textos surpreendentes e cheios de vida, mas um gênero em especial tem o poder de despertar o interesse e a subjetividade dos alunos: o poema.

Parece um pouco controverso e até mesmo ultrapassado, mas escrever um belo texto em versos e estrofes ainda agrada a maioria dos pequenos. Há uma enorme vontade de construir rimas, falar sobre assuntos inquietantes e compartilhar com os outros o seu mundo interior.

É claro que existe também uma primeira reação envolvendo falta de impulso criativo e vergonha, pois falar de nós mesmos exige autoconhecimento e levamos muito tempo, muito mesmo, para entendermos o que somos e queremos para nós.

Por isso, torna-se gratificante partilhar dos momentos de criação e superação que escrever um poema envolve. Perceber-se como autor, ainda mais da nossa própria vida, é uma grande conquista, não só para o aluno, que se vê como protagonista de sua história, aquele que é capaz de vencer seus medos e conquistar seus objetivos, mas também para o professor, que consegue ver o produto final de uma longa caminhada de ensino e aprendizagem.

Quando estudamos o gênero poema nas aulas de redação, os alunos percebem que esse tipo de texto é um terreno fértil para a liberdade. Libertar seus pensamentos, sentimentos e sensações por meio das palavras é libertar também a alma do ser humano que a escreve. Isso porque, como diz Fernando Pessoa, “quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma”.

Em nossos estudos diários, passamos por vários poetas e estilos literários, e ficou claro que poema não se limita a ser um texto apenas sobre o amor, como grande parte dos alunos pensa quando iniciamos tal assunto, mas sim sobre o EU.

Quem escreve poema assume o compromisso da verdade: consigo mesmo, com os outros, com as sensações e sentimentos universais. É assim também com nossos alunos. Esse é o gênero, sem dúvida, em que eles mais se colocam, mais mostram o que são, o que pensam e o que sentem.

Mais uma vez, é Fernando Pessoa quem nos ajuda a entender o poder dos poemas e dos poetas. Pessoa fala sobre ser poeta e sobre o envolvimento da emoção no ato de fazer poemas no texto “Autopsicografia”. No primeiro verso do texto, o poeta é encarado como um fingidor, pois expressa sua subjetividade de modo tão claro e objetivo que parece falar sobre os sentimentos de outra pessoa. Já no fim do texto, é possível perceber que a razão é entretida pela emoção (coração), ou seja, no comando de nossas vidas, estão os sentimentos e sensações, por mais racionais que tentemos ser diante das situações.

Munidos de experiências e aprendizados, em sala, os alunos, após a leitura e discussão de vários poemas, puderam colocar em prática seus sentimentos e explorar o potencial de suas individualidades, elaborando poemas sobre os mais variados temas.

Foi bastante curioso e divertido acompanhar a produção dos textos. Muitos alunos sentiam necessidade de construir poemas com rimas, e tinham dificuldades de pensar o poema além da temática amorosa. Alguns não queriam que os outros colegas lessem seus textos, pois ficavam receosos com piadas e brincadeiras, visto que havia uma grande exposição da subjetividade dentro do gênero trabalhado.

Para ajudar com os problemas inicialmente apresentados pelos alunos, houve a necessidade de diferenciar o gênero textual poema de outro nome que popularmente se usa como sinônimo dele: poesia. De modo opostoao que se acredita, poesia não se refere a um texto composto por versos e organizado em estrofes. Poesia é tudo que nos envolve e sensibiliza, aquilo que é capaz de gerar a sensação do belo em nós.

Dessa forma, o poema contém poesia, mas outros elementos também a possuem, como um belo pôr do sol ou o sorriso de uma pessoa amada. Tendo essa consciência, os alunos buscaram diferentes temas para seus textos e falaram de assuntos bem plurais: infância, viagens, amigos, família, escola etc.

O resultado foi surpreendente. Em muitos textos, a subjetividade estava bem aflorada e podiam-se perceber opiniões sobre determinados temas, sensações diante de situações vividas, inquietações existenciais e até mesmo confissões íntimas.

Como produto final no processo de construção dos poemas, os alunos não tiveram apenas um texto escrito em versos. Eles puderam aprender um pouco mais sobre si mesmos e sobre seus universos interiores. Entender melhor o que se passa em nós e como lidar com quem somos é imprescindível para aprendermos a conviver com o outro de modo respeitoso, pois empatia, paz e amor são construídos de dentro para fora.

 

Professora Mariane Esteves

Colégio Santa Amália – Saúde

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