Para onde vai a educação?

Colégio Santa Amália

21 Junho 2018 | 17h27

Há cerca de 11 mil anos, em uma área de mais de 400 mil km2 de solos regados por quatro diferentes rios – Jordão, Eufrates, Tigre e Nilo -, nasciam na região do Crescente Fértil os primeiros assentamentos agrários da humanidade.

Talvez fosse impossível, naquele momento histórico e para aqueles seres humanos que ali viviam, saber que a fertilidade descoberta transbordaria para além de seus rios. Fertilizaria a humanidade.

Era o início de todo um novo modo de viver a experiência humana, o que também culminaria na transformação da maneira de ver o mundo. Eram os olhares humanos mudando de foco.

Entre os vales da região, que ficou conhecida posteriormente como Berço da Humanidade, os homens deixariam de necessitar da constante movimentação espacial como forma de sobrevivência, e partiriam rumo à uma nova jornada. Uma jornada para dentro, que, com o passar dos anos, traria uma outra exigência, a de ampliar o mundo interior.

De certo, a ampliação de um mundo ordenado por ideias e por criações humanas necessita de um passo essencial: o conhecimento compartilhado.

Tal qual sementes se espalhando pelos campos, as ideias humanas seguiram com o vento, ecoando desde esse passado remoto até os dias atuais, e arando as terras para um futuro no qual também pudessem reproduzir-se.

Nutriram os mais diversos solos, utilizando diferentes vocábulos, traduzidos nos mais variados idiomas em todas as partes do mundo. Coloriram os campos do saber humano com espécies variadas de alimento mental. Ideias em todos os formatos.

Um dos campos mais cultivados? A educação. Em suas origens, uma ideia que carrega a possibilidade de levar uma pessoa para fora de si mesma: a entrada para a percepção daquilo que existe além de si.

Em resumo, educar seria, e isso em diversas culturas, apontar os narizes em direção ao mundo. Um mundo externo. Movimento contrário ao interior, já que, ao expandir o homem para fora de si, o amplia, e impede o seu sufocamento.

Mas como permitir que os narizes apontem rumo ao mundo, coletivamente, se o processo educativo se enraíza de modo tão íntimo, e de formas tão particulares ao redor da Terra?

No atual cenário planetário, conectado e compartilhado – a dita Globalização -, borbulham diferentes metodologias, teorias e caminhos para o sucesso do desenvolvimento humano por meio da educação.

O que haveria de diferente entre modelos como o finlandês, o islandês, o canadense, o cubano, o chileno, o brasileiro, o vietnamita? Qual a proporção de resultados concretos para cada um desses modelos?

Se olharmos de perto para diferentes metodologias que hoje existem pelo mundo, poderemos notar diferenças nos espaços e ferramentas utilizados, nos tipos de atividades que se produzem, e mesmo nos conteúdos e habilidades que são priorizados. No entanto, mais importante do que todas essas diferenças, é preciso questionar os objetivos maiores   presentes em qualquer modelo educacional que possa existir mundo afora e mundo adentro.

Aonde estes modelos de educação pretendem chegar?

Essa resposta, ao contrário da fertilidade do Crescente, não é a mesma à toda a humanidade. Não pode seguir o caminho interconectado da globalização, nem mesmo surgir das inovações que as ferramentas e procedimentos humanos possibilitam à potencialização do aprendizado.

Essa resposta não é global, é local. Não está mundo afora, está mundo adentro. É, portanto, restrita e não ampla.

Restrita na medida em que a educação deve pretender chegar aonde os seres humanos precisam ir. E cada agrupamento humano existente, de cada país do planeta, precisa caminhar para lugares diferentes.

Fazemos parte de um todo conectado, para o qual todos os narizes devem ser apontados, mas precisamos lembrar constantemente que esses narizes residem em rostos, e que estes rostos, por sua vez, habitam corpos, e que estes corpos não caminharam ao longo da história na mesma velocidade.

Cada grupo humano, de cada parte do mundo, precisa voltar para dentro de si antes de apontar os narizes para fora. Cada grupo humano precisa responder à questão: aonde precisamos ir agora?

No momento em que se descobre onde se está, e para onde é preciso ir, toda a trajetória humana volta a ganhar sentido nessa longa linha de mais de 11 mil anos. A linha se alonga novamente. Os homens voltam a se situar, ao mesmo tempo em que ampliam seus horizontes. E é, a partir desse sentido e dessa amplitude, que a educação também poderá ser sentida e ampliada.

Como diria Walter Franco, “Viver é afinar o instrumento, de dentro prá fora, de fora prá dentro.”

A educação vai para onde os homens caminham.

 

Por Vanessa Zanetich.

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