Olhando as nuvens dançando no céu – um breve relato sobre despertar

Colégio Santa Amália

09 de junho de 2020 | 13h50

A primeira educadora ambiental que tive na vida foi minha vó Isabel. 

Costumávamos ir à casa dela, no interior de São Paulo, em longas temporadas e as lembranças desse tempo ainda vivem encantadoramente na minha memória, mesmo que já tenham passado tantos anos da sua passagem para outras dimensões do cosmo. 

A casa dela era uma grande sala de aula, composta por um quintal de terra com uma enorme mangueira no meio. Embaixo da mangueira ficava o forno de barro, onde ela assava todos os pães que eram consumidos por nós e por ela e meu avô, em todos os santos dias de todos os anos em que ela lá morou. Em volta dessa mangueira havia goiabeira, pés de limão e laranja, milho e abacaxi. E, no corredor lateral da casa muitas plantas ornamentais e um lindo pé de romã. Todo final de ano, sabíamos que as parreiras, plantadas por ela, estariam carregadas de uva, mais uma bondade infinita da terra, das mãos e do coração de fada cheio de amor que ela tinha. 

Em todos os dias de infância que lá passei, esse era o meu cenário. Mesmo sozinha, me entretinha entre subir nas árvores, observar os insetos e também ficar de espreita enquanto minha vó puxava o balde cheinho de água de dentro do poço (um local sempre muito cheio de advertências e cuidados), para que pudesse esquentar a água no fogão a lenha, água que seria colocada em um balde de lata pendurado no teto do banheiro, um tipo de chuveiro rústico comum na época e no lugar, já que não havia água encanada. 

Ao cair das tardes, me lembro sentada em uma soleirinha na lateral da casa de madeira, que ficava em uma região mais alta da cidade, observando o céu, o sol que se punha no horizonte, as ruas e o movimento lento das pessoas, os cafezais no horizonte e ficava sentindo o cheiro de lenha queimada nos fogões da vizinhança, coisa que me remete, até hoje, a esses momentos, sempre que sinto um cheiro de lenha queimando. Tudo ali emanava paz e uma aura de tranquilidade e equilíbrio. Não sentíamos falta de nada, sabíamos, instintivamente, que já tínhamos tudo. 

Nesse ambiente, minha mente de criança era livre. Ali, podia andar com os pés na terra, colher os frutos do pé, deitar no chão e observar as formigas. Quando chovia, ficávamos sentados na varanda da frente, contando histórias da vida que já tinha passado e talvez planejando coisas que pudessem acontecer em algum futuro, se tudo desse certo. Não havia pressa… não havia onde chegar. Apenas éramos. Estávamos. Plenos de vida, de oxigênio, cheios de sono a cada anoitecer e de energia, quando chegava o dia, para estarmos juntos. Ali eu, sem saber, aprendi muito. Ali, eu construí a parte mais sólida do meu caráter e o alicerce do ser humano que sou hoje. Ali eu percebia que nós e a natureza somos a mesma coisa. 

Mas, não foi ali e nem naquele tempo que eu me dei conta disso… Eu só fui perceber toda a importância dessa vivência com uma pessoa tão compassiva como a minha avó e com tudo o que a sabedoria silenciosa que emanava dela e do ambiente que me proporcionaram nos dias de hoje, apenas reconheci o quanto éramos conectados com a natureza, com a terra e suas relações observando o semblante frio e distante das pessoas que cruzam comigo no metrô ou quando caminho, eventualmente, pelos shoppings centers da cidade, em busca de uma inutilidade qualquer, percorrendo aqueles pisos tão lisos, limpos e frios. 

Falar dessas lembranças, de alguma forma, me traz alento e dor. Hoje, me levanto muito cedo para, todos os dias, levar “nos bolsos” e nas minhas palavras, algumas sementes de conhecimento para meus alunos, na forma de exemplos e de falas cheias de emoção, verdade e esperança de viver, diante do cenário de caos que nossa grande casa, o planeta Terra, vem atravessando. 

Quando falo do alento que me trazem as lembranças, eu penso em como fui privilegiada por ter vivido e sentido tudo o que passou… mas, quando falo de dor, penso em quanto sofrimento está sendo imposto aos nossos povos originários, às florestas e toda a sua biodiversidade, aos rios e mares, e a tudo o que já desapareceu porque a maioria dos seres humanos está sempre em busca de alguma coisa que, na verdade, não existe, porque tudo é baseado em muita subjetividade, inclusive esse conceito de “felicidade”, tão perseguido pelas pessoas, disfarçado em objetos e em padrões escravizantes e tão inalcançáveis quanto o próprio conceito de felicidade em si, levando as pessoas justamente para o caminho contrário, para a ansiedade e para a depressão, às custas da depredação do ambiente e da manutenção de uma situação de desigualdade que apenas causa mais sofrimento e dor. 

Estar na Terra, hoje, tem sido um desafio constante. Um desafio e um exercício diário de compaixão e de desenvolvimento de uma ternura extrema, para podermos olhar nos olhos de quem está ao nosso lado e encorajar nosso semelhante a experimentar a maravilhosa emoção de que, ao olharmos para o outro e para a natureza estamos, na verdade, olhando para um espelho. Que não há sentido na destruição voluntária do ambiente, que não há “desenvolvimento econômico” cabível quando não tivermos mais água para beber ou a sombra de uma árvore para desfrutar alguns instantes, apenas olhando as nuvens dançando no céu. Que não há nenhum caminho fora da única estrada que pode nos levar a algum lugar que é a do conhecimento do nosso mundo interno. É ali que persiste a verdadeira vida, a verdadeira paz e a verdadeira essência, que grita chamando por nós sem nenhuma resposta, já que estamos sempre correndo para comprar mais alguma coisa ou trabalhar por 12 horas seguidas para ganhar um dinheiro que, às vezes, não temos nem noção de onde gastamos. 

Quando me remeto à casa da minha avó dentro das minhas lembranças, hoje, a pergunta que me faço é: o que você sabe sobre si mesma? 

Em momentos de silêncio, tenho feito muito essa pergunta. Ao observar a dor do mundo em cada ferida das matas, em cada rio que é morto, em cada espécie extinta, procuro encontrar quanto dessa dor é minha e me reconheço muito em todo esse processo. A destruição do meio ambiente é também a minha e a de todos nós. Ao ensinar, procuro transformar essa dor em esperança e tento transmitir a mensagem de que tudo é interdependente e quando uma criança entende isso, ela pode se tornar a própria mudança de tudo o que está acontecendo, dentro dela está todo esse potencial da grande virada. 

Contudo, como me ensina Joanna Macy, é preciso, apesar de tudo, seguir adiante. Cheios de uma mente compassiva, um coração aberto e muita vontade de estender um olhar atento e amoroso a esse grande organismo vivo, pulsante de generosidade: nossa mãe Terra. Seguir adiante acreditando que temos dentro de nós o potencial de amor que é necessário para que todo sofrimento seja amenizado. Que todo mal será esvaído porque ele não faz parte da essência lúcida que habita cada ser e que todos nós estamos aprendendo, cada um a seu tempo. 

E, na simplicidade do jeito de todas as minhas palavras e ações, de todas as minhas memórias e da trajetória que desenhei, hoje sei que não precisamos de pressa… já estamos onde deveríamos estar, já temos tudo o que precisamos e, se você tiver dúvidas, apenas tente olhar para dentro de si mesmo. E, quando se sentir cansado, encoste os seus pés descalços no chão e apenas respire… a vida entra e sai dos seus pulmões a cada instante e talvez só hoje você tenha se dado conta disso. 

Silvia Rinaldi 

Professora do Colégio Santa Amália

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