O estímulo do controle inibitório em alunos nos momentos de brincadeira livre

Colégio Santa Amália

28 de novembro de 2019 | 11h22

Certamente, alguma vez você já deve ter se deparado com alguma situação que fugia do seu controle em sala de aula, nestes momentos o professor esgota todas as suas estratégias em busca de uma solução para aquela turma e quando mesmo assim não surte efeito, é o momento de buscar respostas para entender estas crianças.

E foi o que aconteceu com a minha turma de alunos de dois anos (Toddler) no ano passado. Era uma turma extremamente agitada, numerosa e desafiadora, todos os meus recursos e estratégias para controlá-los em sala de aula foram insuficientes, o que me impulsionou a aprofundar os meus conhecimentos sobre a neurociência, que é o estudo do sistema nervoso (central e periférico), responsável pelas funções de controle em um organismo, coordenando e regulando as atividades corporais. No sistema nervoso central é onde encontra-se o encéfalo, que é dividido em lobos, sendo um deles o lobo frontal, onde acontece o planejamento de ações, bem como o pensamento abstrato, e é nesta região também que se encontram as funções executivas (LENT, 2002).

Estas funções são importantes nos momentos em que crianças ou adultos precisam planejar, executar alguma atividade ou tomar uma decisão. São divididas em controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva (DIAMOND, 2016).

Controle inibitório ou inibição é a capacidade de pensar antes de agir, ou seja, resistir à urgência de dizer ou fazer alguma coisa avaliando a situação e o impacto que o nosso comportamento poderá causar. As crianças com um melhor controle inibitório são mais persistentes, menos impulsivas e com uma melhor regulação de atenção. (DIAMOND, 2013). O completo amadurecimento das funções executivas se dá após os vinte anos de vida do indivíduo. No entanto, isso não significa que o mesmo não seja funcional e/ou que não possa ser estimulado(DIAMOND, 2016).

A partir destes conceitos, tive um outro olhar sobre o comportamento das crianças e fui em busca de estratégias para estimular as funções executivas, em especial o controle inibitório que era uma necessidade da turma. Na minha pesquisa e experiência em escola bilíngue, também levantei outros fatos benéficos para o aprimoramento das funções executivas em crianças, pois a aprendizagem de uma segunda língua, especialmente na educação infantil, apresenta vantagens em habilidades cognitivas. No que se refere ao desenvolvimento da linguagem ainda na infância, revelou-se que a descoberta mais importante da criança ocorre por volta dos dois anos de idade, quando as curvas da evolução do pensamento e da fala se encontram e se unem para desenvolver o pensamento verbal(PEREIRA e PERES, 2011). Além dessas observações relacionadas ao bilinguismo, verificou-se que outro fator que tem contribuído para o desenvolvimento das funções executivas do encéfalo é o momento da brincadeira. “A experiência do brincar muda as conexões dos neurônios na parte da frente do cérebro”, diz Pellis (2015).

Depois do levantamento de todas estas informações e estratégias, coloquei em prática da seguinte maneira: era parte da rotina atividades de movimento ebrincadeira livre e em tais momentos foram inseridas atividades que visavam estimular o controle inibitório dos alunos. Estas atividades ocorreram de duas a três vezes por semana, com duração de 10 a 15 minutos.  As atividadesselecionadas, baseadas no trabalho de Diamond (2013) foram: “Peekaboo; Nursery Rhymes; Follow the leader; Freeze Dance; Hokey Pokey; Head, Shoulder, Knees Toes; Ring around the rosie; Simon says; Puzzle; Memory Game and Make Believe”.Que são músicas e brincadeiras, que envolvem concentração, atenção e ação.

Antes de apresentar as atividades, observei o comportamento da turma durante uma semana, nos momentos de parque e brincadeira livre. Assim, como acompanheio comportamento deles durante as atividades e depoisos observei após os dois meses, durante os mesmos momentos por uma semana para analisar os resultados.

Quando foi iniciado o processo de inserção das atividades específicas na rotina, foi necessário repetir três vezes ou mais cada atividade proposta. Após a repetição das atividades, tornando-as mais frequentes na rotina, os alunos passaram a se interessar e participar de forma ativa, seguindo as orientações.

Apósdois meses realizando estas atividades de estímulo das funções executivas e levando em conta a imersão dos alunos em um ambiente bilíngue, foi perceptível o quão benéfico se provou esta experiência para os alunos, não só durante os momentos de brincadeira livre e parque, como também em outras situações dentro da rotina, nas quais se fez necessário esperar sua vez ou inibir alguma reação impulsiva.

É necessário, considerar que a mudança de comportamento dos alunos, o uso do controle inibitório nos momentos de brincadeira livre e as reações menos impulsivas, não mudaram completamente, pois os alunos são pequenos e conforme citado anteriormente, a região do encéfalo responsável por tais funções demora mais devinte anos para amadurecer, e mesmo após este período pode não ter amadurecido completamente.

Em suma, é muito importante a intencionalidade através das brincadeiras, pois atividades que pertencem a rotina, podem tornar-se boas estratégias e soluções para diferentes situações dentro de sala de aula.

Conclui-se que é válido o estímulo por meio de atividades para o aprimoramento das funções executivas, tais como o controle inibitório, desde a primeira infância, uma vez que isso pode ser um fator benéfico para o desenvolvimento integral da criança.

 

Flávia Nunes Barbosa Pestana

Professora do Colégio Santa Amália Maple Bear Tatuapé

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